domingo, 20 de julho de 2025

Perguntas e respostas: Os pré-socráticos, Tales de Mileto, Anaximandro e Heráclito

Imagem: A Escola de Atenas, de Rafael Sanzio, 1509-1510.

1 - Por que tradicionalmente se considera que Tales é o pai da filosofia? Qual o significado de sua afirmação: “o princípio é a água”?

Tales de Mileto é considerado o pai da filosofia pois foi o primeiro físico grego ou investigador das coisas da natureza como um todo. A sua opinião mais célebre, exposta por volta dos séculos VII-VI a. C., é a de que a água é o princípio das coisas. Tales é hilozoísta, ou seja, atribui vida e geração de vida à matéria. Considera-se aí, o nascimento da filosofia, pois a água (ou o úmido) é apontado como o princípio unificador (arché), o absoluto. É também, nessa conjuntura, que se tem a busca por um princípio que não seja mítico ou teogônico, id est, “que não tente explicar a origem das coisas pelo mito ou pela religião” (Rouanet, 2020, p. 23).

Hegel comenta que a exposição de Tales de que a água é o absoluto ou o princípio é filosófica e, com ela, a Filosofia se inicia, pois através dela chega à consciência de que “o um é a essência, o verdadeiro, o único que é em si e para si. Começa aqui um distanciar-se daquilo que é em nossa percepção sensível; um afastar-se deste ente imediato” (Hegel, 1978, p. 9 apud Rouanet, ibidem, p. 23). Nesse sentido, fala-se de uma passagem do em si em direção ao para si, ou seja, passa-se de um momento em que há ou existe um pensamento para a reflexão, ou seja, para um pensamento que se distancia do imediato e do empírico para pensar a respeito deles.

Complementarmente, Nietzsche comenta que a filosofia grega começa com a proposição de que “a água é a origem de todas as coisas” e deve-se levar essa afirmação em consideração em virtude de três razões: primeiro, essa proposição concebe algo sobre a origem das coisas; segundo, porque o faz sem imagem e mitificação; e, por fim, nela está contido o pensamento (em estágio de pupa) “Tudo é um”, sendo a última legitimadora do pensamento filosófico de Tales. (Nietzsche, 1978, p. 10 apud Rouanet, ibidem, p. 23).

A partir da concepção nietzschiana supracitada, é possível depreender os motivos pelos quais deve-se considerar a “água como princípio de todas as coisas” como elemento inaugural da Filosofia, pois trata-se de uma proposição que, em síntese, “traz o princípio da explicação única, o Uno como princípio explicador das coisas” (Rouanet, ibidem, p. 24).

2 - Como v. interpreta a seguinte frase de Anaximandro: “Pois concedem eles mesmos justiça e deferência uns aos outros através da injustiça segundo a ordenação do tempo”?

Anaximandro, distintamente de seu mestre, Tales de Mileto, entendia que o princípio unificador (arché) não seria um elemento específico, mas sim algo indefinido, infinito, eterno, indestrutível: o ápeiron.

Anaximandro via o universo como infinito, com múltiplos mundos que nascem e perecem no ápeiron. Portanto, o ápeiron não seria apenas um conceito espacial, mas também temporal e qualitativo. Ele representa a ausência de limites em todas as dimensões, sendo a origem e o destino de tudo o que existe.

A afirmação de Anaximandro que o princípio dos seres era o ápeiron (ou o ilimitado), pois donde a geração é para os seres, é para onde também a corrupção se gera segundo o necessário; pois concedem eles mesmos justiça e deferência uns aos outros através da injustiça segundo a ordenação do tempo” (Anaximandro, 1978, p. 16 apud Rouanet, 2020, p. 42), remete à ideia de que o ápeiron representava um princípio primordial, infinito e em constante movimento, de onde tudo se origina e para onde tudo retorna, em um ciclo eterno de criação e destruição.

Nesse sentido, do ápeiron, surgem os opostos (quente e frio, seco e úmido), que entram em constante conflito e geram a multiplicidade de coisas no universo. Quando esses opostos se equilibram, ocorre a destruição das coisas, e elas retornam ao ápeiron, reiniciando o ciclo. Logo, o mundo é regido por um ciclo eterno de geração e corrupção, onde opostos como justiça e injustiça, ou ser e não ser, se alternam e se relacionam através de um processo contínuo. A “ordenação do tempo” implica que essa alternância não é aleatória, mas segue uma ordem cósmica natural.

Em outras palavras, através dessa citação, Anaximandro propõe um universo onde a mudança é a regra fundamental, e a justiça não é uma entidade fixa, mas um aspecto da dinâmica cósmica, na qual a alternância entre opostos é o que possibilita a existência e a manutenção da ordem. A existência e a ordem do mundo não são estabelecidas por uma entidade divina ou por uma justiça estática, mas sim pela própria dinâmica dos opostos, onde a injustiça, em determinado momento, leva à justiça e vice-versa, em uma sequência temporal. Essa visão cosmológica de algo em constante transformação e com múltiplos mundos influenciou o pensamento filosófico posteriormente.

3 - Como Heráclito vê a questão da discórdia? É algo necessariamente ruim? Justifique mediante a citação de pelo menos um fragmento de Heráclito.

Heráclito via a questão da discórdia, ou conflito entre opostos (que estão em constante interação e mudança), não como algo negativo, mas sim uma força motriz para a existência e a harmonia do universo. Em outras palavras, ele via a luta e a oposição como elemento fundamental que impulsionava a mudança e o fluxo constante do universo, algo que leva à unidade e à harmonia. A combinação e o equilíbrio entre elementos opostos, e não a sua ausência, são o que criam a ordem, vivacidade, dinâmica e a beleza do mundo. Três autores corroboram tal visão: Jesué Gomes ressalta que “há uma discórdia entre opostos em ordem à criação, enquanto há também uma concórdia que tende à unificação” (Gomes, 1994, 115); Edward Hussey, aponta que: “De qualquer maneira que os opostos estejam presentes na unidade, o que importa é que a presença deles faz parte da essência da unidade” (Hussey, 2008, p. 150); e Mário José dos Santos afirma que “A luta dos contrários é o princípio da causalidade (ainda que remotamente), gerador da oposição e, ao mesmo tempo, responsável pela harmonia entre os contrários em luta” (Santos, 2001, p. 89).

Dentre os fragmentos que fazem menção ao tema da discórdia, destaca-se, conforme elenca Gomes (ibidem, p. 123), o fragmento 80, que diz: “A guerra é comum, a justiça é discórdia, tudo se cria e se destrói pela discórdia”. Partindo dessa afirmação, ὁ σκοτεινός (“o obscuro”) entende que a harmonia não é estática, mas tensa (uma luta entre polos opostos) e que a harmonia participa das prerrogativas dos deuses: da eternidade, da imortalidade e do poder de governar todas as coisas (Santos, ibidem, p. 90).

Por fim, nessa lógica antagônica entre opostos, Heráclito afirma a existência do princípio (Logos) que é uma ordem racional que dirige o universo ou orienta o devir (vir-a-ser) universal. Ele via esse Logos como unidade múltipla, guerra (pólemos) e paz, luta e harmonia, discórdia e justiça, contradição e síntese dos opostos, ou seja, a força unificadora que conecta todos os opostos (apesar das suas diferenças) e faz parte de uma unidade maior. A substância originária (arché), substrato e fundamento de todas as coisas, é o fogo (manifestação empírica do Logos). (Idem, ibidem, p. 89; 91).

Bibliografia:

Gomes, Jesué Pinharanda. Filosofia grega pré-socrática. 4ª ed. Lisboa: Guimarães, 1994.

Hegel, W. F. Preleções sobre a história da filosofia. Trad. Ernildo Stein. In: Os pré-socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. 2ª ed. Sel. e supervisão José Cavalcante de Souza. São Paulo: Abril Cultural (Col. Os pensadores). 1978.

Hussey, Edward. Heráclito. In: Primórdios da Filosofia Grega. A. A. Long (Org.); Trad. Paulo Ferreira. Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2008, p. 139-166.

Nietzsche, F. A filosofia na época trágica dos gregos. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. In: Os pré-socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. 2ª ed. Sel. e supervisão José Cavalcante de Souza. São Paulo: Abril Cultural (Col. Os pensadores). 1978.

Rouanet, Luiz Paulo. Tales de Mileto. Revista Humanitas, nº 137. São Paulo, Agosto de 2020, pp. 22-27.

_________________. Anaximandro. Revista Humanitas, nº 139. São Paulo, Outubro de 2020, pp. 36-43.

Santos, Mário José dos. Os Pré-Socráticos: cadernos de textos. Juiz de Fora: UFJF, 2001.

Link da imagem: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Escola_de_Atenas_-_Vaticano_2.jpg>. Acesso em: 20 jul. 2025.

Nenhum comentário:

Postar um comentário