Na filosofia da Grécia Antiga, Enkráteia, do grego ἐνκράτεια ("em poder"), refere-se ao estado de poder sobre algo, ou ainda, é comumente tratado como autodomínio, onde o ser humano possui o controle sobre as próprias paixões e instintos. O conceito foi citado, inicialmente, por Sócrates e três de seus alunos: Xenofonte, Isócrates e Platão.
A priori, o próprio nome Sócrates introduz duas noções e é bastante sugestivo: sózo significa “aquele que salvaguarda” e kratós, o poder; e “enkráteia”, contenção / domínio de si e kartería, firmeza, robustez. Nesse sentido, Alcibíades, estratego e político ateniense, afirma que Sócrates poderia beber o quanto se lhe mandar, “sem que jamais se embriague”. E ainda, diz que “durante o inverno, ele saía com um manto do mesmo tipo que antes costumava trazer, e descalço sobre o gelo marchava mais à vontade que os outros calçados”. Tais características socráticas (autocontrole ou contenção, firmeza e robustez) permaneceram nos cínicos e nos estoicos, mas também em Platão, Xenofonte e nos hedonistas cirenaicos, para os quais, “o sábio, mesmo nas festas báquicas, não se corromperá”. Nessa lógica, “o domínio de si é a condição para a autonomia, pois é ele que garante a autárcheia, a autossuficiência, o depender o mínimo, na medida da condição humana, de qualquer outra coisa que não de si mesmo”i.
Reforçando tal perspectiva, Xenofonte diz que Sócrates é o "panton anthropon enkratestatos”, id est, “o mais autocontrolado de todos os humanos”. Sócrates, em seu discurso Apologia, professa ter enkráteia. E é essa noção, especificamente, que o filósofo toma como sinônimo da prudência (sophrosyne) que o oráculo de Delfos atribui a eleii. Na Apologia, Sócrates atribui a sophrosyne como responsável pela justiça perfeita e liberdade inigualável. Porém, na Memorabilia, Sócrates afirma que enkráteia, não sophrosyne, que é motora da justiça perfeita e da liberdade inigualável. Na obra citada, o filósofo explica a Eutidemo que ele deve cultivar enkráteia acima de todas as coisas se ele quiser possuir liberdade (eleutheria). "One cannot be free, he warns him, if one is ruled by one’s bodily pleasures and appetites" (não se pode ser livre, ele o avisa, se alguém é governado pelos prazeres e apetites corporais)iii.
Segundo Kritian Urstad e Tor Freyr, o conceito de prudência para o Sócrates de Xenofonte está tão intimamente conectado com o controle dos próprios desejos e paixões que ele frequentemente usará sophrosyne e enkráteia de forma intercambiáveliv. Corroborando, Paul Cournari afirma que Xenofonte, em todos os seus escritos, confunde temperança (sôphrosynè) e continência (enkráteia). Essas duas qualidades lhe permitem fundar todas as outras virtudes: condições de liberdade, justiça, amizade, riqueza, pensamento. “O autocontrole está na base da utilidade de todas as coisas”, diz o autorv.
Em síntese, para Xenofonte, enkráteia é o “fundamento de todas as virtudes”vi. Porém o filósofo entendia que a virtude tinha três partes principais (enkráteia, sophrosyne e epimeleia heatou [cuidado de si]) e duas de menor grau (coragem [andreia] e sabedoria [sophia])vii. Nili Amit ressalta que a pessoa que exercesse epimeleia e sophrosyne, seria recompensada com a realização de eudaimonia, o "bem supremo”, ou a plenitude, que se pode alcançar na vida. Em vez de Sócrates, que via uma prática de enkráteia para beneficiar alguém após a morte, Xenefonte pensava que o humano que não praticava enkráteia nada mais era do que uma “besta seguindo uma isca”viii.
Isócrates também utiliza o termo enkratés, no sentido de autocontrole ou continênciaix, porém confunde-o com o conceito de temperança. Segundo Paul Cournarie, o filósofo é movido por um interesse semelhante ao de Platão ou Xenofonte, ligando psicologia e política no centro de um projeto educacional onde a temperança (sôphrosynè) desempenha um papel fundamental. Isto é por vezes indiferentemente substituído pela continência (enkráteia), que diz respeito a moral ou a política. Isócrates, contudo, parece fazer um uso original da temperança (sôphrosynè), que expressa o ponto de passagem entre a moral ou a política, excluindo a enkráteiax.
A temperança, em outras palavras, diferentemente de enkráteia, está no centro do pensamento geopolítico de Isócrates, o que é notório nos discursos em torno da figura do príncipe ideal, onde o soberano representa a união mais próxima entre moralidade e política. A palavra sôphron é usada no sentido de temperança sexual, assimilado a enkráteia, antes de ser distinguida dela. Essa imprecisão, porém, “permite que o soberano seja apresentado como um cidadão como qualquer outro no exato momento em que afirma sua distinção. Em Isócrates, o rei imita o povo que imita o rei. A confusão é o vetor de uma profunda subversão, permitindo aclimatar a figura do soberano”xi. A temperança é tratada como um princípio de continuidade entre o rei e povo. Existe um dever dos líderes em melhorar os seus súditos, ou seja, gerar um progresso moral, orientando-os ao trabalho e a sabedoria e fazê-los viver com mais prazer e segurança. Tal progresso moral é adquirido pela imitação.
Platão só usou o termo enkráteia com moderação e tardiamente. O Cármides, inteiramente dedicado à definição de temperança (sôphrosynè), não diz uma palavra sobre enkráteia e temos que aguardar pelos diálogos Górgias e República para ver Platão trabalhar nas duas noções em conjuntoxii. Segundo Livio Rossetti, “Platão teorizou não só o primado da alma racional sobre a alma irascível e sobre a alma concupiscível, mas também o direito-dever da alma racional de governar os impulsos irracionais”xiii. Platão também negou a realidade da akrasia (ausência de poder ou controle sobre os próprios desejos) e, portanto, da enkráteia porque ambas estão interligadas entre si e com os resultados lógicos da busca do conhecimento. Estudos recentes observaram a possibilidade de enkráteia e akrasia estarem dentro dos elementos da alma desde o inícioxiv.
Por fim, Aristóteles, complementarmente, entende que enkráteia é o oposto de akrasia, que é uma falta de controle sobre os próprios desejosxv. Segundo Aline Valéria,
“O que há de peculiar na akrasia (bem como na enkrateia) e é princípio fundamental para que a sua existência seja a evidência de um conflito moral que indica a presença atuante de um algo mais forte que a razão que acaba impedindo o agente (neste caso, o acrático) sustentar o seu melhor julgamento e consequentemente realizar a ação correta.
[Existe ainda um] arrependimento que o acrático sente ao final de sua ação moralmente condenável. O fato de o acrático ter consciência de que deveria estar fazendo algo, mas no ímpeto do prazer acaba abandonando a sua decisão, a frustração de ter fracassado marca uma característica importante em sua disposição, pois, o arrependimento representa uma possibilidade de cura, isto é, apesar de o acrático sentir prazer na ação que realiza, ele quer, em certa medida, superar os seus apetites e ser uma pessoa moralmente elogiada da próxima vez. E o porquê dessa característica ser tão importante se deve ao fato de que por vezes as ações acráticas e as ações intemperantes parecem se “confundir” em algum momento, uma vez que a finalidade de ambas as atitudes inevitavelmente é o prazer, e esta característica acaba sendo o fio condutor na distinção entre fazer o que sabe ser errado quando se delibera em vista disso e fazer o que sabe ser errado mesmo quando tivera previamente decidido não fazer isso”xvi.
Nesse sentido, uma pessoa no estado de enkráteia realizaria uma escolha positiva devido às suas consequências positivas, enquanto uma pessoa num estado de akrasia realizaria o que sabe não ser uma escolha positiva, apesar das suas consequências negativas, devido aos prazeres imediatos que a escolha proporcionaxvii.
Notas e referências bibliográficas:
i RIBEIRO, Luís Felipe Bellintani. História da Filosofia I. Florianópolis: Filosofia/ EaD/ UFSC, 2008, p. 106.
ii URSTAD, Kristian.; FREYR, Tor. Philosophy as a Way of Life in Xenophon's Socrates. In: E-Logos, Electronic Journal for Philosophy. ISSN 1211-0442, 12/2010, University of Economics Prague, p. 6. Disponível em: <https://e-logos.vse.cz/pdfs/elg/2010/01/12.pdf>. Acesso em: 16 mar. 2025.
iii Idem, ibidem.
iv Idem.
v COURNARIE, Paul. “Ἐγκράτεια: politique, morale, subjectivation (IVe siècle av. J.-C.)”. In: Essais [Online], 11 | 2017, publicado em: 14 de outubro de 2020. Disponível em: <http://journals.openedition.org/essais/3522>. Acesso em: 15 mar. 2025.
vi JAEGER, W. Paideia: The Ideals of Greek Culture. Volume 2: In Search of the Divine Centre. New York and Oxford: Oxford University Press, 1943, p. 54
vii AMIT, Nili Alon, “Xenophon's Virtue Personified”, Kentron [Online], 32 | 2016, Online desde 10 de maio de 2017. Disponível em: <http://journals.openedition.org/kentron/855>. Acesso em: 16 mar. 2025.
viii Idem.
ix NEMBROT, Milena Lozano. La erótica griega y el problema de la enkráteia. In: Actas del Tercer Simposio Nacional de Filosofía Antigua “Legalidad cósmica y legalidad humana en la Filosofía Antigua” / María Cecilia Colombani... [et al.]; compilado por María Cecilia Colombani; Guido Fernández Parmo; Juan Manuel Gerardi. - 1a ed. - Mar del Plata: Universidad Nacional de Mar del Plata, 2018, pp. 196.
x COURNARIE, ibidem.
xi Idem.
xii Cf. VIANNA FILHO, Voltaire Ribeiro. Investigação acerca da noção de sophrosyne no Cármides. (Dissertação de Mestrado em Filosofia). Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2022. Disponível em: <https://repositorio.ufrn.br/bitstream/123456789/52625/1/Investigacaoacercanocao_ViannaFilho_2022.pdf» Acesso em: 16 mar. 2025.
xiii ROSSETTI, Livio. Estratégias no tratamento das paixões (de Antifonte a Sócrates). In: Hypnos, ano 14 / nº 20 - 1º sem. 2008 - São Paulo, p. 3. Disponível em: <https://hypnos.org.br/index.php/hypnos/article/view/246/256>. Acesso em: 16 mar. 2025.
xiv Cf. DESTRÉE, P. & C. Bobonich (eds.). Akrasia in Greek philosophy. In: Philosophia antiqua, 106, Leiden, Brill. 2007: 126; DORION L-A. Enkrateia and the partition of the soul in the Gorgias. In: Barney R, Brennan T, Brittain C, eds. Plato and the Divided Self. Cambridge: Cambridge University Press; 2012:33-52. doi:10.1017/CBO9780511977831.004.
xv "Aristotle's Ethics". In: The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Metaphysics Research Lab, Stanford University. 2018. Disponível em: <http://plato.stanford.edu/entries/aristotle-ethics/#Akr>. Acesso em: 16 mar. 2025.
xvi ALMEIDA, Aline Valéria Ramos de. Akrasia e ignorância em Aristóteles. (Dissertação de Mestrado em Filosofia). Salvador: UFBA, 2019, p. 22. Disponível em: <https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/39549/3/Disserta%c3%a7%c3%a3o_AKRASIA%20E%20IGNOR%c3%82NCIA%20EM%20ARIST%c3%93TELES_Aline%20Val%c3%a9ria%20Ramos%20de%20Almeida_com_Ficha_Catalogr%c3%a1fica_e_Ata.pdf>. Acesso em: 16 mar. 2025.
xvii BRICKHOUSE, Thomas; SMITH, Nicolau. Socrates On Akrasia, Knowledge, And The Power Of Appearance. In: Akrasia in Greek Philosophy: From Socrates to Plotinus. BOBONICH, Christopher; DESTRÉE, Pierre (ed.). Series: Philosophia Antiqua, Volume: 106, 2007, p. 9.
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