Mary Cassatt, 'Lady at the Tea Table', 1883–1885i.
Assim como a História Oficial, a história de grandes personalidades não capta a minha atenção. Gosto de conhecer histórias da vida privada, ou seja, relatos do cotidiano, de pessoas comuns, trabalhadores, operários, donas de casa, viajantes, enfim, histórias e biografias do povo em geral. No ramo da historiografia é possível encontrar alguns domínios que trabalham com a História da vida privada: História Oral, História e Memória e História do Tempo Presente.
De onde surge o desejo de estudar a vida privada? Pois bem, o rotineiro cotidiano geralmente é esquecido ou posto como algo irrelevante. Porém, é no dia a dia que o ser humano compõe a sua história. Mary del Priore entende que a “vida cotidiana” é palco de uma dicotomização da realidade social. No primeiro plano, existe um espaço de transformação, onde se articula o futuro de uma formação social. Em um segundo plano, tem-se uma esfera de “reprodução”, ou seja, onde há repetições do existente, um lugar de permanências culturais e de rituaisii. Balizando entre os dois âmbitos, o indivíduo ora é ator, enquanto agente de mudanças, ora é excluído da reforma no movimento da História (lembrando que existem campos de atuação que superam a dualidade “detentor”/agente e “excluído”).
Partindo da noção de sujeito transformador, Alain Touraine trata o ator social enquanto um agente de mudança, porquanto o ator social é alguém que, “engajado em relações concretas, profissionais, econômicas, mas também igualmente ligado à nacionalidade ou gênero, procura aumentar a sua autonomia, controlar o tempo e as suas condições de trabalho ou de existência”iii. Diante de tal noção, contento-me em dizer que todo indivíduo, por menor que seja a posição socioeconômica que ocupe, é um agente social; porém, conforme afirmou Émile Durkheim, o agente social, ainda é alguém que assimila normas, princípios e regras que orientam seu comportamento na sociedadeiv. É daí que surge o debate: os indivíduos são totalmente condicionados pelo ambiente, ou possuem uma margem de atuação própria? Caso seja engolido pela estrutura, onde está sua subjetividade?
Posto isso, é na particularidade (mundo interno de cada pessoa, que inclui seus sentimentos, pensamentos, valores, desejos e perspectivas) que eu busco (perguntas e) respostas. É no interior da “história privada”, como ensina Michel de Certeau, que se inventa o cotidiano, “graças às ‘artes de fazer’, herdeiras da métis grega e conjunto de espertezas sutis e de táticas de resistência através das quais o homem ordinário se apropria de espaço, inverte objetos e códigos, usando-os à sua maneira. A ‘massa’ aparentemente sem qualidade, dócil e passiva é capaz de colocar em uso uma arte de viver que passa pela adaptação, pelo ‘jeito’, pela improvisação e pela negociação”v. São nas microrresistências que inauguram microliberados que mobilizam recursos impensáveis entre as pessoas comuns. “Parecendo submeter-se ao poder, os ‘mais fracos’ inventam, rapidamente, como metaforizar a ordem dominante fazendo suas leis e representações funcionarem sob outro registro”vi. Resumindo, eis os obliterados pela ordem social agindo e se mobilizando dentro de sua capacidade e espaços de atuação.
É nesse sentido que, considerada como uma história dos anti-heróis, ou pessoas desqualificadas, a história da vida cotidiana e privada tem por objetos os pequenos prazeres, detalhes “quase invisíveis”, dos dramas silenciados, do banal, do insignificante, das coisas “deixadas de lado”. “Mas nesse inventário de aparentes miudezas, reside a imensidão e a complexidade através da qual a história se faz e se reconcilia consigo mesma”vii.
Por fim, eu não poderia deixar de indicar a coleção referencial dirigida pelos historiadores franceses Phillipe Ariès e Georges Duby: A História da Vida Privada, lançada em 1985. A coleção é dividida em 5 volumes: Do Império Romano ao ano mil (volume 1), organizado por Paul Veyne; Da Europa feudal à Renascença (volume 2), organizado por Georges Duby; Da Renascença ao Século das Luzes (volume 3), organizado por Philippe Ariès e Roger Chartier; Da Revolução Francesa à Primeira Guerra (volume 4), organizado por Michelle Perrot; Da Primeira Guerra a nossos dias (volume 5), organizado por Antoine Prost e Gérard Vincent.
i Mary Cassatt, 'Lady at the Tea Table', 1883–1885. 64,7 x 92. Paris. Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f2/Mary_Cassatt_-_The_Tea_-_MFA_Boston_42.178.jpg>. Acesso em: 30 jan. 2025.
ii DEL PRIORE, M. História do cotidiano e da vida privada. In: Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia/ Ciro Flamarion Cardoso, Ronaldo Vainfas (orgs.). Rio de Janeiro: Campus, 1997, pg. 377.
iii TOURAINE, 1998, p. 37 apud FERREIRA, D. Do semelhante ao mesmo, do diferente ao semelhante: sujeito, ator, agente e protagonismo na linguagem. Rev bras linguist apl [Internet]. v. 4, p. 619–40, Out. 2017, Disponível em <https://doi.org/10.1590/1984-6398201611377>. Acesso em: 30 jan. 2025.
iv JÚNIOR, Edison. A mecânica da ordem: individuo e sociedade em Durkheim. In: Cadernos de Campo: Revista de Ciências Sociais, ISSN: 1415-0689, n. 9 (2003). Disponível em: <https://periodicos.fclar.unesp.br/cadernos/article/view/10509/6829>. Acesso em: 30 jan. 2025.
v DE CERTEAU, M. L’invention du quotidien, arts de faire. Paris: Editions 10/18, 1980, pp. XLVII, apud DEL PRIORE, ibidem, p. 396-397.
vi DEL PRIORE, op. cit., pg. 397.
vii Idem, pg. 397-398.

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