quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Histórias da vida privada

 

Mary Cassatt, 'Lady at the Tea Table', 1883–1885i.

Assim como a História Oficial, a história de grandes personalidades não capta a minha atenção. Gosto de conhecer histórias da vida privada, ou seja, relatos do cotidiano, de pessoas comuns, trabalhadores, operários, donas de casa, viajantes, enfim, histórias e biografias do povo em geral. No ramo da historiografia é possível encontrar alguns domínios que trabalham com a História da vida privada: História Oral, História e Memória e História do Tempo Presente.

De onde surge o desejo de estudar a vida privada? Pois bem, o rotineiro cotidiano geralmente é esquecido ou posto como algo irrelevante. Porém, é no dia a dia que o ser humano compõe a sua história. Mary del Priore entende que a “vida cotidiana” é palco de uma dicotomização da realidade social. No primeiro plano, existe um espaço de transformação, onde se articula o futuro de uma formação social. Em um segundo plano, tem-se uma esfera de “reprodução”, ou seja, onde há repetições do existente, um lugar de permanências culturais e de rituaisii. Balizando entre os dois âmbitos, o indivíduo ora é ator, enquanto agente de mudanças, ora é excluído da reforma no movimento da História (lembrando que existem campos de atuação que superam a dualidade “detentor”/agente e “excluído”).

Partindo da noção de sujeito transformador, Alain Touraine trata o ator social enquanto um agente de mudança, porquanto o ator social é alguém que, “engajado em relações concretas, profissionais, econômicas, mas também igualmente ligado à nacionalidade ou gênero, procura aumentar a sua autonomia, controlar o tempo e as suas condições de trabalho ou de existência”iii. Diante de tal noção, contento-me em dizer que todo indivíduo, por menor que seja a posição socioeconômica que ocupe, é um agente social; porém, conforme afirmou Émile Durkheim, o agente social, ainda é alguém que assimila normas, princípios e regras que orientam seu comportamento na sociedadeiv. É daí que surge o debate: os indivíduos são totalmente condicionados pelo ambiente, ou possuem uma margem de atuação própria? Caso seja engolido pela estrutura, onde está sua subjetividade?

Posto isso, é na particularidade (mundo interno de cada pessoa, que inclui seus sentimentos, pensamentos, valores, desejos e perspectivas) que eu busco (perguntas e) respostas. É no interior da “história privada”, como ensina Michel de Certeau, que se inventa o cotidiano, “graças às ‘artes de fazer’, herdeiras da métis grega e conjunto de espertezas sutis e de táticas de resistência através das quais o homem ordinário se apropria de espaço, inverte objetos e códigos, usando-os à sua maneira. A ‘massa’ aparentemente sem qualidade, dócil e passiva é capaz de colocar em uso uma arte de viver que passa pela adaptação, pelo ‘jeito’, pela improvisação e pela negociação”v. São nas microrresistências que inauguram microliberados que mobilizam recursos impensáveis entre as pessoas comuns. “Parecendo submeter-se ao poder, os ‘mais fracos’ inventam, rapidamente, como metaforizar a ordem dominante fazendo suas leis e representações funcionarem sob outro registro”vi. Resumindo, eis os obliterados pela ordem social agindo e se mobilizando dentro de sua capacidade e espaços de atuação.

É nesse sentido que, considerada como uma história dos anti-heróis, ou pessoas desqualificadas, a história da vida cotidiana e privada tem por objetos os pequenos prazeres, detalhes “quase invisíveis”, dos dramas silenciados, do banal, do insignificante, das coisas “deixadas de lado”. “Mas nesse inventário de aparentes miudezas, reside a imensidão e a complexidade através da qual a história se faz e se reconcilia consigo mesma”vii.

Por fim, eu não poderia deixar de indicar a coleção referencial dirigida pelos historiadores franceses Phillipe Ariès e Georges Duby: A História da Vida Privada, lançada em 1985. A coleção é dividida em 5 volumes: Do Império Romano ao ano mil (volume 1), organizado por Paul Veyne; Da Europa feudal à Renascença (volume 2), organizado por Georges Duby; Da Renascença ao Século das Luzes (volume 3), organizado por Philippe Ariès e Roger Chartier; Da Revolução Francesa à Primeira Guerra (volume 4), organizado por Michelle Perrot; Da Primeira Guerra a nossos dias (volume 5), organizado por Antoine Prost e Gérard Vincent. 

i Mary Cassatt, 'Lady at the Tea Table', 1883–1885. 64,7 x 92. Paris. Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f2/Mary_Cassatt_-_The_Tea_-_MFA_Boston_42.178.jpg>. Acesso em: 30 jan. 2025.

ii DEL PRIORE, M. História do cotidiano e da vida privada. In: Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia/ Ciro Flamarion Cardoso, Ronaldo Vainfas (orgs.). Rio de Janeiro: Campus, 1997, pg. 377.

iii TOURAINE, 1998, p. 37 apud FERREIRA, D. Do semelhante ao mesmo, do diferente ao semelhante: sujeito, ator, agente e protagonismo na linguagem. Rev bras linguist apl [Internet]. v. 4, p. 619–40, Out. 2017,  Disponível em <https://doi.org/10.1590/1984-6398201611377>. Acesso em: 30 jan. 2025.

iv JÚNIOR, Edison. A mecânica da ordem: individuo e sociedade em Durkheim. In: Cadernos de Campo: Revista de Ciências Sociais, ISSN: 1415-0689, n. 9 (2003). Disponível em: <https://periodicos.fclar.unesp.br/cadernos/article/view/10509/6829>. Acesso em: 30 jan. 2025.

v DE CERTEAU, M. L’invention du quotidien, arts de faire. Paris: Editions 10/18, 1980, pp. XLVII, apud DEL PRIORE, ibidem, p. 396-397.

vi DEL PRIORE, op. cit., pg. 397.

vii Idem, pg. 397-398.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Diferentes perspectivas

Uma das pinturas mais impressionantes e marcantes que já vi (pessoalmente, na The National Gallery, London) foi “Os Embaixadores”, de Hans Holbein, o Jovem, concluída em 1533. Além da técnica naturalista de Holbein, do realismo de vários objetos e mistérios que compõe a pintura, um elemento capta a atenção do espectador: o desenho de um crânio distorcido. O fenômeno anamorfo pode ser percebido quando se olha de um determinado ponto à direita da tela, ou mesmo de frente: a figura ganha uma outra perspectiva (1).

A seguir, temos a pintura original:

Hans Holbein the Younger, The Ambassadors, 1533, oil on oak, 207 x 209.5 cm (The National Gallery, London) (2) .

Com o auxílio da tecnologia é possível vislumbrar uma nova perspectiva:



Quando observada de um ângulo superior direito do quadro, a representação anamórfica revela a caveira (3).

É possível obter uma outra apreciação, a partir do uso de um tubo e de um copo de água:

Observação: com o uso desses recursos, a tela deve ser vista de frente (4)

Existem várias análises acerca do significado do crânio retratado: “para alguns, o crânio enfatiza a transitoriedade da vida, especialmente da vaidade e da riqueza lembrando que a morte iguala a todos, sejam ricos ou pobres, poderosos ou humildes. Outros afirmam se tratar de uma espécie de assinatura do pintor, pois Holbein, em alemão significa ‘osso oco’”. (5)

Diante do exposto, pode-se notar que a arte nos proporciona observar telas, esculturas e outras expressões humanas, sob inúmeras perspectivas. E por que não refletir acerca da própria vida? Quero enfatizar aqui que, assim como na arte, (tudo) (n)a vida pode ser visto sob diferentes óticas.

Um exemplo que ampara a afirmação feita é a analogia do copo de água:

O copo está meio cheio ou meio vazio? (6)

Para algumas pessoas, o copo está meio cheio; para outras, está meio vazio. E como isso pode ser trazido para nossa realidade? Pois bem, os indivíduos que veem o “copo cheio” se trata de pessoas com boa autoestima, realizadas, motivadas. Já as que veem o “copo meio vazio” são pessimistas, insatisfeitas, desmotivadas. Há estudos que aprofundam essa reflexão, porém não é esse o meu objetivo. Quero ressaltar que há outra formas de interpretar uma teoria: por exemplo, definir se o copo está meio cheio ou meio vazio significa apenas uma afirmação lógica. “Nada mais”. Em outras palavras, a analogia do copo de água se trata, unicamente, de uma pensamento categórico, determinístico, que não abrange a dinâmica e as particularidades de um todo (7).

No campo filosófico, observando e analisando o cosmos / a physis (Natureza), Heráclito de Éfeso chegou à conclusão de que tudo está em movimento e constante transformação (teoria do fluxo). Atribui-se ao filósofo a famosa frase: “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários” (8). Já Parmênides, opondo-se a Heráclito, acreditava que não havia mudança, mas apenas uma aparência/ um efeito de movimento, ou ilusão dos sentidos. Para o outro filósofo, a lei que rege o universo é a permanência; o Ser é imóvel, não se transforma. Na conceituação parmenidiana o ón (a consistência) e a ausência de movimento (kinésis) negam a physis (9).

Partindo de referências da Arte, Psicologia e Filosofia, é possível concluir que existem diversas interpretações e pontos de vista sobre o cosmos, a natureza, a vida (eventos físicos, metafísicos); enfim, tudo pode ser observado por mais de um prisma (nível micro x macro, multiscopico/ plural…).


Bibliografia e referências:

(1) Há teorias que abordam sobre outras formas e ângulos de visualização. Cf.: SAMUEL, Edgar R. (outubro de 1963). "Death in the Glass - Uma nova visão dos 'Ambassadores' de Holbein". Revista Burlington, 105 (727). Burlington Magazine Publications Ltd: 436– 441 e CHEETAM, abril (maio de 2012). Um véu de identidade: anamorfose como dupla visão na prática da arte contemporânea (Tese de doutorado). Liverpool John Moores University . U594608.

(2) Hans Holbein the Younger, The Ambassadors, 1533, oil on oak, 207 x 209.5 cm (The National Gallery, London). Disponível em: <https://www.meisterdrucke.pt/impressoes-artisticas-sofisticadas/Hans-Holbein-der-J%C3%Bcngere/14/Os-embaixadores.html>. Acesso em: 28 jan. 2025.

(3) DOMINGUES, Joelza Ester. Os enigmas na pintura “Os embaixadores”, de Hans Holbein, o Jovem. Blog Ensinar História. 19 jan 2017. Disponível em: <https://ensinarhistoria.com.br/pintura-os-embaixadores-holbein/>. Acesso em: 19 jan. 2025.

(4) Imagem disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7d/Demonstration_of_Holbein%27s_skull_image_viewed_through_a_tube.jpg> e DOMINGUES, Joelza. Ibdem. Acesso em: 28 jan. 2025.

(5) DOMINGUES, Joelza. Ibdem.

(6) Imagem disponível em: <https://us.123rf.com/450wm/romanamrk/romanamrk2104/romanamrk210400036/168316206-um-copo-de-%C3%A1gua-meio-cheio-ou-meio-vazio-em-luz-dura-com-sombra-agrad%C3%A1vel-na-superf%C3%ADcie-azul.jpg?ver=6>. Acesso em: 28 jan. 2025.

(7) DELGADO, Jennifer. Não importa se o copo está meio cheio ou meio vazio, mas, se está se enchendo. In: Equipe Abrangente, Instituto Mineiro de Terapia Breve. Disponível em: <https://abrangente.psc.br/nao-importa-se-o-copo-esta-meio-cheio-ou-meio-vazio-mas-se-esta-se-enchendo/>. Acesso em: 28 jan. 2025. 

(8) BORNHEIM, Gerd. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Cultrix, 2000 apud QUATTRER, Gabriel. A recepção da filosofia de Heráclito pelo jovem Nietzsche. In: Classica, e-ISSN 2176-6436, v. 37, pp. 5, 2024. Disponível em: <https://doi.org/10.24277/classica.v37.2024.1098>. Acesso em: 28 jan. 2025.

(9) MARÍAS, Julián. Parmênides. In: Revista Internacional d’Humanitats, n. 56, set-dez 2022, CEMOrOc-Feusp / Univ. Autònoma de Barcelona, pp. 4.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Como opera o poder? A perspectiva de alguns pensadores: Weber, Bobbio, Gramsci, Foucault e Bourdieu (Resumo)

Dentre os pensadores que refletiram sobre o poder, destacam-se Max Weber, Norberto Bobbio, Michel Foucault, Antônio Gramsci e Pierre Bourdieu. A abordagem mais predominante, realizada por Weber e Bobbio, está relacionada ao poder operado nas grandes organizações soberanas: Estado, igrejas e sindicatos. Já análise de Foucault, Gramsci e Bourdieu, estão ligadas a um poder difuso, descentralizado.

Mas antes de adentrar nas visões de cada autor, é necessário realizar algumas definições. O que seria o poder? O poder por si só é a capacidade de agir e de produzir efeitos. O poder é social, ou seja, envolve uma relação entre pessoas, ou entre suas condutas. Melhor dizendo, o poder é um exercício relacionado com a conduta de outra pessoa.

Posto isso, iniciaremos por Max Weber, sociólogo alemão do século XIX, que formulou as primeiras ideias sobre o poder. Para Weber, poder é a capacidade de influenciar a conduta de outra pessoa conforme a sua vontade. Porém, para conseguir o poder, necessita-se de dois recursos: a) coerção física (por exemplo: a polícia detêm a legitimidade de coerção); e, b) persuasão.

a) Na coerção física utilizam-se sanções negativas (ameaças) e manipulação (pode operar por sanções positivas e negativas). Por exemplo, na relação entre patrão e empregado existe o uso do recurso econômico para impor o poder. A sanção positiva está no fato de empregado obedecer o patrão, pois ganhará o seu dinheiro. Já a nação negativa explicita-se quando o patrão ameaça demitir o funcionário se ele não realizar a ação solicitada. O empregado deve obedecer pois perderá o emprego.

b) O poder por persuasão relaciona-se à legitimação e significação. Melhor dizendo, a persuasão está ligada à cultura e signos culturais. Algumas pessoas, dentro de determinados espaços, podem reproduzir essa cultura, legitimando-a. Fundamentalmente, existe um poder sutil. A crença vem das significações e da forma como as pessoas organizam sua cultura e seus significados. Resumindo, de certo modo, pode ser que obedecemos, ou não, uma pessoa, simplesmente pelo fato de acreditarmos que elas têm autoridade.

Weber aborda também apresenta outra faceta do poder: a dominação, que seria um tipo de poder específico, pois ela compreende o poder agregado à legitimação, ou seja, a probabilidade da obediência. Nessa lógica, o autor aponta para três tipos de dominação: a) tradicional, na qual a legitimidade é pautada pelas tradições (por exemplo, a obediência ao monarca); b) carismática: deve existir uma identificação com o líder carismático. O carisma produz efeitos de poder; em outras palavras, o carisma legitima a obediência; c) racional legal: é executada pelo Estado e são burocráticas. Na prática, por exemplo, ocorre quando os habitantes de um país respeitam as leis, acreditando em sua legitimidade.

Para Norberto Bobbio, filósofo político italiano, o poder é social, ou seja, depende de uma relação entre pessoas e não é algo que você possui, mas exercita. Bobbio ressalta sobre a intencionalidade de poder que ocorre quando o agente A quer produzir certo efeito sobre o agente B, ou seja, deseja que o agente B realize determinada conduta. Se ele fizer com que o agente B tome determinada conduta é porque ele conseguiu realizar o seu poder. De certo modo, isso isso implica que o agente A vai precisar de algum tipo de recurso, como, por exemplo, um recurso econômico (exemplo do patrão e do empregado supracitado) ou ideológico (por exemplo, uma mãe pode manipular o filho dizendo que ele tem que realizar algo porque aquilo vai fazer bem para ele, ou ele deve deixar de fazer algo, como sair à noite, pois mãe quer que ele durma cedo; logo a mãe conversa com o filho e produz um efeito ideológico de modo que o filho aceite).

Diferentemente das abordagens de Weber e Bobbio, que analisam o poder “de cima para baixo”, Gramsci, Foucault e Bourdieu entendem que o poder se executa de “baixo para cima”.

Nessa lógica, Gramsci, filósofo marxista italiano, aponta que o poder opera pelos meios ideológicos; enquanto Karl Marx acredita que o poder estava na estrutura, Gramsci revela que o poder está na superestrutura, ou seja, a ideologia é que produz efeitos de poder (e muitas vezes os sujeitos não percebem). Como o Estado consegue obediência, indo até contra o próprio povo (quando necessário)? Por que as pessoas defendem que decisões sejam aceitáveis ou necessárias (ainda que, de fato, não sejam)? Isso ocorre por causa de um poder ideológico que é distribuído nas igrejas, escolas, sindicatos e, sobretudo, nos meios de comunicação.

Os agentes de telecomunicação/ mídia (televisão, jornalismo) podem trazer uma ideia hegemônica, e fazer com que as pessoas se convençam que a ação do Estado é correta; em outras palavras, o poder opera de uma forma persuasiva. As pessoas não percebem que estão sendo “persuadidas” e reproduzindo ideias hegemônicas como se fossem suas. Logo, não se dão conta de que estão defendendo ideias contrárias aos seus próprios interesses. Por exemplo, pode ocorrer o caso de trabalhadores apoiarem a redução de direitos trabalhistas, por influência “midiática”. Resumindo, para Gramsci, existe uma ideia hegemônica que está presente na maior parte das redes de comunicação, e que moldam a “opinião pública”. Porém, existe a possibilidade de se realizar uma resistência, ao se formar uma imprensa alternativa, que não seja hegemônica, ou seja, apresente o “outro lado da história” (como a imprensa operária).

Foucault, filósofo e historiador francês, de modo mais sutil do que Gramsci, entende que somos subjetivados por meio de nossas práticas, que são construídas por meio de discursos, ou seja, os discursos interferem diretamente nas práticas e na maneira como nós nos construímos como pessoas. Dito de outro modo, os discursos possuem poder sobre os indivíduos; a forma como se constrói os discursos faz com que as pessoas ajam de determinadas maneiras. Logo, é nos discursos que o autor centra suas discussões.

Enquanto Weber, Bobbio e Gramsci pensam que o poder se concentra em um poder negativo (do não pode), Foucault entende que o poder é sutil. Para o filósofo, existe um poder produtivo, que é construído a partir dos discursos. No poder produtivo (positivo), a pessoa constrói uma autodisciplina que ficará conhecida como poder disciplinar, moldada a partir do discurso. O poder negativo era aplicado no contexto monárquico, por exemplo, quando se usava o método de torturas aos contraventores do Ancien Régime. Todavia, atualmente, esse método foi substituído pelo uso do poder produtivo. Nessa lógica, o poder não desaparece, mas se desloca. O poder negativo (que ainda existe, porém é utilizado com uma menor frequência do que no passado) é sobreposto pelo poder produtivo, que atua com mais eficiência, por meio da autodisciplina. As pessoas obedecem sem perceber e sem precisar serem mandadas por alguém (monarca ou líder), mas, agem a partir de discursos.

Foucault exemplifica sua teoria através do modelo do panóptico, baseado no projeto carcerário do utilitarista Jeremy Bentham. Foucault demonstra que existe uma disciplinação e manipulação dos corpos de modo que as pessoas obedeçam e ajam da forma correta. O projeto de prisão é um modelo paradigmático para a sociedade disciplinar, exercido nas fábricas, nas escolas e nos exércitos, por exemplo. Por meio de discursos, esse tipo de projeto produz corpos dóceis e úteis, ou seja, pessoas autodisciplinadas. Na prática, dentro do modelo prisional, existe uma torre de vigilância que observa como os “presos” agem, de forma correta ou incorreta, porém os encarcerados não sabem quando estão sendo observados, mas acreditam estarem sendo vigiados o tempo todo. Logo, introjeta-se uma disciplina, onde os sujeitos se tornam autodisciplinados, de forma que a própria configuração do projeto traga a produção de um sujeito autodisciplinado.

Ainda dentro do panóptico, o trabalho é utilizado como dispositivo para disciplinar o corpo. Sem que ninguém mande, existe um sinal que o prisioneiro ouve, que controla os horários das atividades dos detentos. Nessa lógica, ao acatar os sinais sonoros, o próprio preso disciplina-se. Em outras palavras, por meio desse dispositivo, arquiteta-se um corpo útil, que está o tempo todo produzindo, e um corpo dócil, que não tem tempo para desobedecer.

Por fim, Bourdieu, sociólogo francês, trabalha com a ideia de um poder persuasivo, relacionado à singnificação. O sociólogo francês apresenta o poder simbólico, que é um tipo de poder invisível (mais oculto ainda que a abordagem de Foucault) que está estruturado na forma como os agentes significam e na forma como os agentes esquematizam os pensamentos. O poder simbólico funciona mediante a existência de uma estrutura de pensamento que faz com que os seres humanos pensem o mundo de determinada forma. Os indivíduos, que não param para refletir sobre essas estruturas (de pensamento), consideram que elas sejam naturais, ou seja, a forma com os agentes concebem é natural, é lógica. Entretanto, toda estrutura (de pensamento e ação) é construída a partir da socialização. A estrutura que o agente forma em sua mente (pensamento) é mediada por uma outra estrutura que também se forma na sociedade (ação).

Bourdieu fala que existe uma disputa simbólica para estruturar/ esquematizar o pensamento que é feita de forma inconsciente. Os seres humanos tendem a pensar o mundo de forma dicotômica (bem/mau, certo/errado). Porém, o sociólogo entende que quem vai estruturar essa dicotomia é que vence a disputa, fazendo com que o agente receba o lado positivo dessa dicotomia, de modo com que os seres humanos pensem que a estrutura social e dicotômica é natural. Por exemplo, senhores e escravos, patrões e empregados.

Outrossim, Bourdieu aponta que as várias formas de dominação serão legitimadas pois já estão estruturadas dentro da forma como os agentes pensam. São esquemas de pensamento impensáveis, pois já estão estruturados, de modo que os agentes legitimem as formas de dominação e que as pessoas aceitem a dominação. Por meio da dimensão simbólica é que as pessoas aceitam obedecer e achem normal ou natural os meios de dominação.

No presente artigo, citei superficialmente as ideias dos autores, no intuito, apenas, de entender as diferentes perspectivas e noções sobre como o poder é efetivado e diluído em nossa sociedade.

Bibliografia:

ESTEVES, Renata. Como opera o poder? A perspectiva de alguns pensadores: Weber, Bobbio, Gramsci, Foucault e Bourdieu. Se Liga - Enem e VestibularesDisponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Xov8D81xnyo>. Acesso em: 16 jan. 2025.

Link da imagem, disponível em: <https://www.ijba.com.br/blog/marionetes-do-self-tecnica-junguiana-expressiva-e-projetiva>. Acesso em: 16 jan. 2025.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Por uma Sociologia do arcaico: a influência do Grande Sertão sobre as Minas Gerais

 

A obra Tapui-Retama. Viagem ao Brasil profundo: Minas Gerais e Grande Sertão, do historiador e sociólogo alagoano Dirceu Lindoso, digna de ser considerada uma verdadeira magnum opus, retrata uma abordagem inovadora da trajetória histórica brasileira. Segundo o autor, a sociedade sertaneja carrega traços arcaicos, na qual existiram dois tipos de quiliasmos cristãos: o quiliasmo do santuário de Bom Jesus da Lapa-Monte Santo e do povoado de Canudos. Os dois quiliasmos possuíram determinantes diferentes que os caracterizaram e lhes deram feições próprias. Bom Jesus da Lapa-Monte Santo tratou-se de um quiliasmo uno (de vertente curial, ligado à Contrarreforma), onde era proibido fazer guerra e permitia-se a reza; já Canudos, de quiliasmo duo (beático), era permitido fazer guerra com a reza, em outras palavras, podia-se lutar pela conquista do Céu e da terra. Ademais, o povoado-santo fundado por Antônio Conselheiro (Canudos) recebeu diversas influências arcaicas, sendo elas: o mito do Deus de Ourique (surgida por volta de 1139) (1), o sebastianismo português (2), a fé cristã pautada na cultura de horizontalidade e igualitarismo camponês de póvoas da Galiza Sueva (Península Ibérica), dentre outras.

Para compreender a sociedade mineira, Lindoso apresenta um panorama sobre os elementos que formaram a sociedade sertaneja brasileira. Primeiramente, o autor estabelece uma área de difusão das coordenadas socioculturais, utilizando-se critérios de definição etnográfica. A área de formação sociocultural da etnia dos vaqueiros-jagunços é denominada Tapui-Retama. De origem Tupi-guarani, essa área foi ocupada, gradualmente, com a inserção de colonos brancos europeus, oriundos da região da Galiza Sueva. A partir do contato entre a religiosidade cristã arcaica de Conselheiro e a miscigenação de colonos e etnias indígenas tupi/tapuia “criaram-se os elementos formares básicos do Grande Sertão” (3). Dito de outra maneira, foi o encontro do igualitarismo camponês de póvoa e aldeia da Galiza Sueva com o mundo curiboca do Tapui-Retama (4) que formou o pastoreio dos vaqueiros armados de Deus. Sem a mestiçagem desses componentes, não teria se formado a sociedade típica arcaica de vaqueiros/pastores que difundiram o Cristianismo ibérico por uma grande faixa territorial.

A junção do índio com os colonos brancos criou duas categorias de vaqueiros: os desarmados dos santuários, e tangedores/pastores de gado (apelidados de curiboca); e os armados de Deus, que rezam, guerreiam e fundam povoados para a conquista da terra. Os vaqueiros armados (ou jagunços de Deus) foram influenciados pelos frades italianos que pregavam uma catequese “terrorista”: a do Advento da Cruz (advento iminente do inferno) (5). Essa teologia, do culto totêmico da Cruz, chegou a Portugal na região da serra do Buçaco no século XVIII, e logo se popularizou. Em 1728, frei Antônio das Chagas fundou a via crucis do Bom Jesus do Bonfim. Trazida ao Brasil, a teologia do Bom Jesus difundiu-se por Minas Gerais, e tornou-se diferenciada no Grande Sertão: a dos vaqueiros-jagunços (uma teologia armada de interpretação popular).

Diante da conjuntura explicitada anteriormente, Lindoso chega à ideia de que Minas Gerais foi marcada por duas teologias cristãs: a arcaica dos sertões dos vaqueiros-jagunços do Urucúia, do Preto e do Uauá; e da Minas Gerais do barroco-rococó cristão criado por negros de etnia fula cristianizada e brancos galegos-portugueses – ambos pregadores de um evangelho de ideologia cristã. “Nessa trama cultural – que é o barroco-rococó mineiro – os criadores são negros fulas cristãos vindos do Sudão e colonos brancos vindos das póvoas e aldeias da Galiza Sueva”. (6) Pode-se dizer que o papel dos negros de origem africana marcou diretamente o surgimento de Minas Gerais, pois houve uma aliança urbana entre os negros de etnia fula, com uma tradição africana de arte congolesa ou sudanesa, que mesclou de um modo artístico com as tendências de arte do barroco-rococó das igrejas mineiras.

A Minas é dual: urbana, com traços do barroco-rococó, e rural, de rusticidade sertaneja, do modelo Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, que se interliga com o modelo baiano e pernambucano de sertão, e uma Minas urbana, oriunda da aliança de paulistas bandeirantes e de baianos povoadores cavadores e bateiadores de ouro com escravos negros fulas, de etnia africana. Em outras palavras, a arte do barroco-rococó mineira é fruto de um mundo urbano baseado na aliança de negros escravos de etnia fula e brancos colonos de etnia galego-portugesa e mameluca.

O escritor João Guimarães Rosa acreditava que Minas formou-se a partir de dentro. Porém, Lindoso demonstra que ela se formou a partir de fora, ou seja, a partir de três invasões: a do sul, por goianos que atravessaram os matos-grossos de Goiás; a do norte, por baianos e pernambucanos que subiram pela contracorrente do rio São Francisco; a de leste, por fluminenses e paulistas que atravessaram a serra do Mar, a Bocaina e a Mantiqueira. Minas surgiu tardiamente, quando já se formava o Grande Sertão. Por esse motivo, o “Grande Sertão é o mais antigo e mais arcaico” (7).

Lindoso apresenta uma característica relevante nos primeiros tempos de formação de Minas: o negro foi um importante aliado dos emboabas na preia de índios. Porém, no Grande Sertão, o parceiro social do branco foram os índios e os mamelucos (mestiços de índias com colonos brancos). Muitas vilas existentes na ribeira do rio São Francisco, em Minas, se originaram de índios sedentários. Esse fato corrobora a perspectiva do arcaísmo rural mineiro.

Concluindo, o autor afirma que a Minas urbana barroco-rococó é uma criação do século XVIII; já o Grande Sertão mineiro é pretérito, nascido de várias confluências de frentes coloniais, que deram a Minas Gerais suas características hodiernas. “Pois não se deve confundir a formação da Minas Gerais barroco-rococó com a do Grande Sertão, a da língua d’uai com a da língua d’oxente” (8).


Bibliografia e notas:

1 – O mito de Deus de Ourique surgiu em Portugal, quando, em meio de uma batalha que os portugueses perdiam, abriu as portas do céu e lhes entregou a espada que usaram para vencer. Essa influência cristã/celestial moldou a cultura portuguesa, que passou de um conteúdo político par um religioso. E foi esse modelo que chegou ao Brasil, trazido por camponeses da Galiza Sueva, marcado por um catolicismo curial de missões religiosas em que se aprendia a rezar, e um catolicismo beático, em que se aprendia a rezar e a lutar por posses terrestres. LINDOSO, Dirceu. Tapui-Retama. Viagem ao Brasil profundo: Minas Gerais e Grande SertãoBrasília: Fundação Astrojildo Pereira, 2016: 21.

2 – Sebastianismo corresponde a uma crença surgida em Portugal no final século XVI como consequência do desaparecimento do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. ALCÂNTARA, B. O Mito da Ressurreição do Herói: o sebastianismo e sua permanência na cultura brasileira. In: Academia Cearense de Letras, Coleção Dolor Barreira, Mito e Literatura. pp. 23-39. Disponível em: <https://www.academiacearensedeletras.org.br/revista/Colecao_Diversos/Mito_Literatura/ACL_Mito_e_Literatura_06_O_mito_da_ressurreicao_Beatriz_Alcantara.pdf>. Acesso em: 12 jan. 2025.

3 LINDOSO, ibid., p. 16.

4 Duas etnias básicas cruzavam o Brasil no cenário da formação do Grande Sertão e intervenção europeia da conquista e colonização: de Sul a Norte, a etnia indígena Tupinambá e a etnia Tapuia-kariri, de Norte a Sul. O encontro desses índios se deu nas imediações da margem do rio São Francisco, onde os Tupinambá ensinaram os Tapuia-kariri a construir canoas, e depois, nos sertões das Gerais, os Tupinambá-Tapuia-kariri se acasalaram com colonos brancos hispânicos de etnia galego-sueva e de uma cultura religiosa medieval de póvoas e aldeias. Idem: 20-21.

5 – Lindoso difere cangaceiro de jagunço. Cf. Idem: 41.

6 – Idem: 48.

7 – Idem: 124.

8 – Idem: 152

Link da imagem, disponível em: <https://i.uai.com.br/A4VgxLj1JhqnQkWTeX9R5d1r9jk=/750x0/imgsapp2.uai.com.br/app/noticia_133890394703/2020/12/17/266142/20201217040247376390u.jpg>. Acesso em: 12 jan. 2025.


terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Apologia da Filosofia

A Filosofia deve estar atrelada à existência do homem, aqui e agora (presente). Nesse sentido, a filosofia direciona-se ao indivíduo, e dá espaço para aqueles que são movidos pelo desejo de verdade.

Quem não se interessa por filosofia, trata com desdém questões fundamentais da vida. Como afirmou Karl Jaspers, “ela é perigosa” (1), pois permite os indivíduos verem as coisas “a uma qualidade insólita”, e os leva a rever seus juízos. Para muitos, é melhor não pensar filosoficamente.

Na perspectiva dos políticos que estão no poder, é melhor que não exista Filosofia, pois “massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão somente usam de uma inteligência de rebanho” (2).

Quem é o personagem de interesse da filosofia? O homem. Nessa ótica, o filósofo deverá escutar o que ele diz, observar os seus atos, interessar-se por suas palavras e ações, no intuito de compartilhar o destino comum da humanidade.

Um dos grandes problemas da filosofia é que ela é “perturbadora da paz” (3), pois busca à verdade total, aquela que o mundo não deseja. Porém, o que seria, ou como seria a verdade? Em síntese, ela não é estática e definitiva, “mas movimento incessante, que penetra no infinito” (4). O filósofo deve ter a consciência que a verdade está em constante conflito, mas deve despi-la de violência. O diálogo com outros pensadores contribui para o processo de transparecimento da verdade. Para Jaspers, “a dignidade do homem reside em perceber a verdade. Só a verdade o liberta e só a liberdade o prepara, sem restrições, para a verdade” (5).

Dito isso, o filósofo estará incumbido de viver para a verdade e estar sempre interrogando, independente de onde for, das situações que lhe aconteça, ou, ainda mesmo, diante de seu próprio juízo de valor.

A filosofia está acessível a todos? Para Platão, não. Mas para Imannuel Kant, sim. Jaspers ressalta que o homem comum pode compreender os grandes homens e intelectuais do passado, apropriar-se do que realizaram, aproximar-se deles, com respeito, porém não deve divinizá-los. Não obstante, a filosofia é uma grande força que leva o homem a encontrar o caminho para a liberdade. “Só ela possibilita a independência interior” (6). E essa independência é obtida exatamente quando reconheço que (em minha liberdade, em minha razão) “fui dado a mim mesmo”; e, se atinjo o ponto em que sou dado a mim mesmo, distancio-me de mim. Afastando-se de minha ótica, contemplo o que acontece e o que faço.

Em qual aspecto o filósofo perde sua liberdade? Quando sua independência se mescla com orgulho. Filosofar permite ter lucidez sobre as variadas formas de nossa dependência, mas de um modo que, “em vez de permanecermos esmagados por nossa impotência, encontramos, a partir de nossa independência, meio de recuperação” (7).

Atualmente, qual o papel da filosofia? Primeiramente, ensina a não nos deixarmos iludir. Ao encarar a catástrofe possível, ela faz surgir a inquietude, porém proíbe a atitude de tornar inevitável a catástrofe. “Com efeito, apesar de tudo, o futuro depende também de nós” (8). Mesmo diante do desastre possível, a filosofia, ainda sim, preservaria a dignidade do homem em declínio. Apoiado na verdade, o homem encara seja o que for.


Bibliografia e notas:

1 – JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento filosófico. 16ª ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2002: 139.

2 – Idem, 139.

3 – Idem, 140.

4 – Idem.

5 – Idem.

6 – Idem, 144.

7 – Idem.

Imagem disponível em<: https://static.significados.com.br/foto/filosofia-og.jpg?class=ogImageSquare>. Acesso em: 09 jan. 2025.