domingo, 12 de janeiro de 2025

Por uma Sociologia do arcaico: a influência do Grande Sertão sobre as Minas Gerais

 

A obra Tapui-Retama. Viagem ao Brasil profundo: Minas Gerais e Grande Sertão, do historiador e sociólogo alagoano Dirceu Lindoso, digna de ser considerada uma verdadeira magnum opus, retrata uma abordagem inovadora da trajetória histórica brasileira. Segundo o autor, a sociedade sertaneja carrega traços arcaicos, na qual existiram dois tipos de quiliasmos cristãos: o quiliasmo do santuário de Bom Jesus da Lapa-Monte Santo e do povoado de Canudos. Os dois quiliasmos possuíram determinantes diferentes que os caracterizaram e lhes deram feições próprias. Bom Jesus da Lapa-Monte Santo tratou-se de um quiliasmo uno (de vertente curial, ligado à Contrarreforma), onde era proibido fazer guerra e permitia-se a reza; já Canudos, de quiliasmo duo (beático), era permitido fazer guerra com a reza, em outras palavras, podia-se lutar pela conquista do Céu e da terra. Ademais, o povoado-santo fundado por Antônio Conselheiro (Canudos) recebeu diversas influências arcaicas, sendo elas: o mito do Deus de Ourique (surgida por volta de 1139) (1), o sebastianismo português (2), a fé cristã pautada na cultura de horizontalidade e igualitarismo camponês de póvoas da Galiza Sueva (Península Ibérica), dentre outras.

Para compreender a sociedade mineira, Lindoso apresenta um panorama sobre os elementos que formaram a sociedade sertaneja brasileira. Primeiramente, o autor estabelece uma área de difusão das coordenadas socioculturais, utilizando-se critérios de definição etnográfica. A área de formação sociocultural da etnia dos vaqueiros-jagunços é denominada Tapui-Retama. De origem Tupi-guarani, essa área foi ocupada, gradualmente, com a inserção de colonos brancos europeus, oriundos da região da Galiza Sueva. A partir do contato entre a religiosidade cristã arcaica de Conselheiro e a miscigenação de colonos e etnias indígenas tupi/tapuia “criaram-se os elementos formares básicos do Grande Sertão” (3). Dito de outra maneira, foi o encontro do igualitarismo camponês de póvoa e aldeia da Galiza Sueva com o mundo curiboca do Tapui-Retama (4) que formou o pastoreio dos vaqueiros armados de Deus. Sem a mestiçagem desses componentes, não teria se formado a sociedade típica arcaica de vaqueiros/pastores que difundiram o Cristianismo ibérico por uma grande faixa territorial.

A junção do índio com os colonos brancos criou duas categorias de vaqueiros: os desarmados dos santuários, e tangedores/pastores de gado (apelidados de curiboca); e os armados de Deus, que rezam, guerreiam e fundam povoados para a conquista da terra. Os vaqueiros armados (ou jagunços de Deus) foram influenciados pelos frades italianos que pregavam uma catequese “terrorista”: a do Advento da Cruz (advento iminente do inferno) (5). Essa teologia, do culto totêmico da Cruz, chegou a Portugal na região da serra do Buçaco no século XVIII, e logo se popularizou. Em 1728, frei Antônio das Chagas fundou a via crucis do Bom Jesus do Bonfim. Trazida ao Brasil, a teologia do Bom Jesus difundiu-se por Minas Gerais, e tornou-se diferenciada no Grande Sertão: a dos vaqueiros-jagunços (uma teologia armada de interpretação popular).

Diante da conjuntura explicitada anteriormente, Lindoso chega à ideia de que Minas Gerais foi marcada por duas teologias cristãs: a arcaica dos sertões dos vaqueiros-jagunços do Urucúia, do Preto e do Uauá; e da Minas Gerais do barroco-rococó cristão criado por negros de etnia fula cristianizada e brancos galegos-portugueses – ambos pregadores de um evangelho de ideologia cristã. “Nessa trama cultural – que é o barroco-rococó mineiro – os criadores são negros fulas cristãos vindos do Sudão e colonos brancos vindos das póvoas e aldeias da Galiza Sueva”. (6) Pode-se dizer que o papel dos negros de origem africana marcou diretamente o surgimento de Minas Gerais, pois houve uma aliança urbana entre os negros de etnia fula, com uma tradição africana de arte congolesa ou sudanesa, que mesclou de um modo artístico com as tendências de arte do barroco-rococó das igrejas mineiras.

A Minas é dual: urbana, com traços do barroco-rococó, e rural, de rusticidade sertaneja, do modelo Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, que se interliga com o modelo baiano e pernambucano de sertão, e uma Minas urbana, oriunda da aliança de paulistas bandeirantes e de baianos povoadores cavadores e bateiadores de ouro com escravos negros fulas, de etnia africana. Em outras palavras, a arte do barroco-rococó mineira é fruto de um mundo urbano baseado na aliança de negros escravos de etnia fula e brancos colonos de etnia galego-portugesa e mameluca.

O escritor João Guimarães Rosa acreditava que Minas formou-se a partir de dentro. Porém, Lindoso demonstra que ela se formou a partir de fora, ou seja, a partir de três invasões: a do sul, por goianos que atravessaram os matos-grossos de Goiás; a do norte, por baianos e pernambucanos que subiram pela contracorrente do rio São Francisco; a de leste, por fluminenses e paulistas que atravessaram a serra do Mar, a Bocaina e a Mantiqueira. Minas surgiu tardiamente, quando já se formava o Grande Sertão. Por esse motivo, o “Grande Sertão é o mais antigo e mais arcaico” (7).

Lindoso apresenta uma característica relevante nos primeiros tempos de formação de Minas: o negro foi um importante aliado dos emboabas na preia de índios. Porém, no Grande Sertão, o parceiro social do branco foram os índios e os mamelucos (mestiços de índias com colonos brancos). Muitas vilas existentes na ribeira do rio São Francisco, em Minas, se originaram de índios sedentários. Esse fato corrobora a perspectiva do arcaísmo rural mineiro.

Concluindo, o autor afirma que a Minas urbana barroco-rococó é uma criação do século XVIII; já o Grande Sertão mineiro é pretérito, nascido de várias confluências de frentes coloniais, que deram a Minas Gerais suas características hodiernas. “Pois não se deve confundir a formação da Minas Gerais barroco-rococó com a do Grande Sertão, a da língua d’uai com a da língua d’oxente” (8).


Bibliografia e notas:

1 – O mito de Deus de Ourique surgiu em Portugal, quando, em meio de uma batalha que os portugueses perdiam, abriu as portas do céu e lhes entregou a espada que usaram para vencer. Essa influência cristã/celestial moldou a cultura portuguesa, que passou de um conteúdo político par um religioso. E foi esse modelo que chegou ao Brasil, trazido por camponeses da Galiza Sueva, marcado por um catolicismo curial de missões religiosas em que se aprendia a rezar, e um catolicismo beático, em que se aprendia a rezar e a lutar por posses terrestres. LINDOSO, Dirceu. Tapui-Retama. Viagem ao Brasil profundo: Minas Gerais e Grande SertãoBrasília: Fundação Astrojildo Pereira, 2016: 21.

2 – Sebastianismo corresponde a uma crença surgida em Portugal no final século XVI como consequência do desaparecimento do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. ALCÂNTARA, B. O Mito da Ressurreição do Herói: o sebastianismo e sua permanência na cultura brasileira. In: Academia Cearense de Letras, Coleção Dolor Barreira, Mito e Literatura. pp. 23-39. Disponível em: <https://www.academiacearensedeletras.org.br/revista/Colecao_Diversos/Mito_Literatura/ACL_Mito_e_Literatura_06_O_mito_da_ressurreicao_Beatriz_Alcantara.pdf>. Acesso em: 12 jan. 2025.

3 LINDOSO, ibid., p. 16.

4 Duas etnias básicas cruzavam o Brasil no cenário da formação do Grande Sertão e intervenção europeia da conquista e colonização: de Sul a Norte, a etnia indígena Tupinambá e a etnia Tapuia-kariri, de Norte a Sul. O encontro desses índios se deu nas imediações da margem do rio São Francisco, onde os Tupinambá ensinaram os Tapuia-kariri a construir canoas, e depois, nos sertões das Gerais, os Tupinambá-Tapuia-kariri se acasalaram com colonos brancos hispânicos de etnia galego-sueva e de uma cultura religiosa medieval de póvoas e aldeias. Idem: 20-21.

5 – Lindoso difere cangaceiro de jagunço. Cf. Idem: 41.

6 – Idem: 48.

7 – Idem: 124.

8 – Idem: 152

Link da imagem, disponível em: <https://i.uai.com.br/A4VgxLj1JhqnQkWTeX9R5d1r9jk=/750x0/imgsapp2.uai.com.br/app/noticia_133890394703/2020/12/17/266142/20201217040247376390u.jpg>. Acesso em: 12 jan. 2025.


2 comentários:

  1. gostei dessa tematica, qual o nome desse livro?

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    1. Olá, caro leitor. A obra se chama: Tapui-Retama. Viagem ao Brasil profundo: Minas Gerais e Grande Sertão, publicada por Dirceu Lindoso, em 2016.

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