quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Como opera o poder? A perspectiva de alguns pensadores: Weber, Bobbio, Gramsci, Foucault e Bourdieu (Resumo)

Dentre os pensadores que refletiram sobre o poder, destacam-se Max Weber, Norberto Bobbio, Michel Foucault, Antônio Gramsci e Pierre Bourdieu. A abordagem mais predominante, realizada por Weber e Bobbio, está relacionada ao poder operado nas grandes organizações soberanas: Estado, igrejas e sindicatos. Já análise de Foucault, Gramsci e Bourdieu, estão ligadas a um poder difuso, descentralizado.

Mas antes de adentrar nas visões de cada autor, é necessário realizar algumas definições. O que seria o poder? O poder por si só é a capacidade de agir e de produzir efeitos. O poder é social, ou seja, envolve uma relação entre pessoas, ou entre suas condutas. Melhor dizendo, o poder é um exercício relacionado com a conduta de outra pessoa.

Posto isso, iniciaremos por Max Weber, sociólogo alemão do século XIX, que formulou as primeiras ideias sobre o poder. Para Weber, poder é a capacidade de influenciar a conduta de outra pessoa conforme a sua vontade. Porém, para conseguir o poder, necessita-se de dois recursos: a) coerção física (por exemplo: a polícia detêm a legitimidade de coerção); e, b) persuasão.

a) Na coerção física utilizam-se sanções negativas (ameaças) e manipulação (pode operar por sanções positivas e negativas). Por exemplo, na relação entre patrão e empregado existe o uso do recurso econômico para impor o poder. A sanção positiva está no fato de empregado obedecer o patrão, pois ganhará o seu dinheiro. Já a nação negativa explicita-se quando o patrão ameaça demitir o funcionário se ele não realizar a ação solicitada. O empregado deve obedecer pois perderá o emprego.

b) O poder por persuasão relaciona-se à legitimação e significação. Melhor dizendo, a persuasão está ligada à cultura e signos culturais. Algumas pessoas, dentro de determinados espaços, podem reproduzir essa cultura, legitimando-a. Fundamentalmente, existe um poder sutil. A crença vem das significações e da forma como as pessoas organizam sua cultura e seus significados. Resumindo, de certo modo, pode ser que obedecemos, ou não, uma pessoa, simplesmente pelo fato de acreditarmos que elas têm autoridade.

Weber aborda também apresenta outra faceta do poder: a dominação, que seria um tipo de poder específico, pois ela compreende o poder agregado à legitimação, ou seja, a probabilidade da obediência. Nessa lógica, o autor aponta para três tipos de dominação: a) tradicional, na qual a legitimidade é pautada pelas tradições (por exemplo, a obediência ao monarca); b) carismática: deve existir uma identificação com o líder carismático. O carisma produz efeitos de poder; em outras palavras, o carisma legitima a obediência; c) racional legal: é executada pelo Estado e são burocráticas. Na prática, por exemplo, ocorre quando os habitantes de um país respeitam as leis, acreditando em sua legitimidade.

Para Norberto Bobbio, filósofo político italiano, o poder é social, ou seja, depende de uma relação entre pessoas e não é algo que você possui, mas exercita. Bobbio ressalta sobre a intencionalidade de poder que ocorre quando o agente A quer produzir certo efeito sobre o agente B, ou seja, deseja que o agente B realize determinada conduta. Se ele fizer com que o agente B tome determinada conduta é porque ele conseguiu realizar o seu poder. De certo modo, isso isso implica que o agente A vai precisar de algum tipo de recurso, como, por exemplo, um recurso econômico (exemplo do patrão e do empregado supracitado) ou ideológico (por exemplo, uma mãe pode manipular o filho dizendo que ele tem que realizar algo porque aquilo vai fazer bem para ele, ou ele deve deixar de fazer algo, como sair à noite, pois mãe quer que ele durma cedo; logo a mãe conversa com o filho e produz um efeito ideológico de modo que o filho aceite).

Diferentemente das abordagens de Weber e Bobbio, que analisam o poder “de cima para baixo”, Gramsci, Foucault e Bourdieu entendem que o poder se executa de “baixo para cima”.

Nessa lógica, Gramsci, filósofo marxista italiano, aponta que o poder opera pelos meios ideológicos; enquanto Karl Marx acredita que o poder estava na estrutura, Gramsci revela que o poder está na superestrutura, ou seja, a ideologia é que produz efeitos de poder (e muitas vezes os sujeitos não percebem). Como o Estado consegue obediência, indo até contra o próprio povo (quando necessário)? Por que as pessoas defendem que decisões sejam aceitáveis ou necessárias (ainda que, de fato, não sejam)? Isso ocorre por causa de um poder ideológico que é distribuído nas igrejas, escolas, sindicatos e, sobretudo, nos meios de comunicação.

Os agentes de telecomunicação/ mídia (televisão, jornalismo) podem trazer uma ideia hegemônica, e fazer com que as pessoas se convençam que a ação do Estado é correta; em outras palavras, o poder opera de uma forma persuasiva. As pessoas não percebem que estão sendo “persuadidas” e reproduzindo ideias hegemônicas como se fossem suas. Logo, não se dão conta de que estão defendendo ideias contrárias aos seus próprios interesses. Por exemplo, pode ocorrer o caso de trabalhadores apoiarem a redução de direitos trabalhistas, por influência “midiática”. Resumindo, para Gramsci, existe uma ideia hegemônica que está presente na maior parte das redes de comunicação, e que moldam a “opinião pública”. Porém, existe a possibilidade de se realizar uma resistência, ao se formar uma imprensa alternativa, que não seja hegemônica, ou seja, apresente o “outro lado da história” (como a imprensa operária).

Foucault, filósofo e historiador francês, de modo mais sutil do que Gramsci, entende que somos subjetivados por meio de nossas práticas, que são construídas por meio de discursos, ou seja, os discursos interferem diretamente nas práticas e na maneira como nós nos construímos como pessoas. Dito de outro modo, os discursos possuem poder sobre os indivíduos; a forma como se constrói os discursos faz com que as pessoas ajam de determinadas maneiras. Logo, é nos discursos que o autor centra suas discussões.

Enquanto Weber, Bobbio e Gramsci pensam que o poder se concentra em um poder negativo (do não pode), Foucault entende que o poder é sutil. Para o filósofo, existe um poder produtivo, que é construído a partir dos discursos. No poder produtivo (positivo), a pessoa constrói uma autodisciplina que ficará conhecida como poder disciplinar, moldada a partir do discurso. O poder negativo era aplicado no contexto monárquico, por exemplo, quando se usava o método de torturas aos contraventores do Ancien Régime. Todavia, atualmente, esse método foi substituído pelo uso do poder produtivo. Nessa lógica, o poder não desaparece, mas se desloca. O poder negativo (que ainda existe, porém é utilizado com uma menor frequência do que no passado) é sobreposto pelo poder produtivo, que atua com mais eficiência, por meio da autodisciplina. As pessoas obedecem sem perceber e sem precisar serem mandadas por alguém (monarca ou líder), mas, agem a partir de discursos.

Foucault exemplifica sua teoria através do modelo do panóptico, baseado no projeto carcerário do utilitarista Jeremy Bentham. Foucault demonstra que existe uma disciplinação e manipulação dos corpos de modo que as pessoas obedeçam e ajam da forma correta. O projeto de prisão é um modelo paradigmático para a sociedade disciplinar, exercido nas fábricas, nas escolas e nos exércitos, por exemplo. Por meio de discursos, esse tipo de projeto produz corpos dóceis e úteis, ou seja, pessoas autodisciplinadas. Na prática, dentro do modelo prisional, existe uma torre de vigilância que observa como os “presos” agem, de forma correta ou incorreta, porém os encarcerados não sabem quando estão sendo observados, mas acreditam estarem sendo vigiados o tempo todo. Logo, introjeta-se uma disciplina, onde os sujeitos se tornam autodisciplinados, de forma que a própria configuração do projeto traga a produção de um sujeito autodisciplinado.

Ainda dentro do panóptico, o trabalho é utilizado como dispositivo para disciplinar o corpo. Sem que ninguém mande, existe um sinal que o prisioneiro ouve, que controla os horários das atividades dos detentos. Nessa lógica, ao acatar os sinais sonoros, o próprio preso disciplina-se. Em outras palavras, por meio desse dispositivo, arquiteta-se um corpo útil, que está o tempo todo produzindo, e um corpo dócil, que não tem tempo para desobedecer.

Por fim, Bourdieu, sociólogo francês, trabalha com a ideia de um poder persuasivo, relacionado à singnificação. O sociólogo francês apresenta o poder simbólico, que é um tipo de poder invisível (mais oculto ainda que a abordagem de Foucault) que está estruturado na forma como os agentes significam e na forma como os agentes esquematizam os pensamentos. O poder simbólico funciona mediante a existência de uma estrutura de pensamento que faz com que os seres humanos pensem o mundo de determinada forma. Os indivíduos, que não param para refletir sobre essas estruturas (de pensamento), consideram que elas sejam naturais, ou seja, a forma com os agentes concebem é natural, é lógica. Entretanto, toda estrutura (de pensamento e ação) é construída a partir da socialização. A estrutura que o agente forma em sua mente (pensamento) é mediada por uma outra estrutura que também se forma na sociedade (ação).

Bourdieu fala que existe uma disputa simbólica para estruturar/ esquematizar o pensamento que é feita de forma inconsciente. Os seres humanos tendem a pensar o mundo de forma dicotômica (bem/mau, certo/errado). Porém, o sociólogo entende que quem vai estruturar essa dicotomia é que vence a disputa, fazendo com que o agente receba o lado positivo dessa dicotomia, de modo com que os seres humanos pensem que a estrutura social e dicotômica é natural. Por exemplo, senhores e escravos, patrões e empregados.

Outrossim, Bourdieu aponta que as várias formas de dominação serão legitimadas pois já estão estruturadas dentro da forma como os agentes pensam. São esquemas de pensamento impensáveis, pois já estão estruturados, de modo que os agentes legitimem as formas de dominação e que as pessoas aceitem a dominação. Por meio da dimensão simbólica é que as pessoas aceitam obedecer e achem normal ou natural os meios de dominação.

No presente artigo, citei superficialmente as ideias dos autores, no intuito, apenas, de entender as diferentes perspectivas e noções sobre como o poder é efetivado e diluído em nossa sociedade.

Bibliografia:

ESTEVES, Renata. Como opera o poder? A perspectiva de alguns pensadores: Weber, Bobbio, Gramsci, Foucault e Bourdieu. Se Liga - Enem e VestibularesDisponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Xov8D81xnyo>. Acesso em: 16 jan. 2025.

Link da imagem, disponível em: <https://www.ijba.com.br/blog/marionetes-do-self-tecnica-junguiana-expressiva-e-projetiva>. Acesso em: 16 jan. 2025.

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