sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

A (eterna) incompletude do ser

O ser humano é, naturalmente, incompleto. Na concepção cristã, existem quatro conjunturas que respaldam essa afirmação. A primeira trata-se da gênese, na qual Deus (יהוה ou YHWH) cria uma companheira para Adão, para que ele não ficasse só. “E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora que esteja como diante dele” (1). A segunda encontra-se no livro de Provérbios que pontua “O Sheol e a Destruição são insaciáveis, como insaciáveis são os olhos do homem” (2). A terceira está redigida no livro de Eclesiastes, na qual afirma-se que: "Quem amar o dinheiro jamais dele se fartará; e quem amar a abundância nunca se fartará da renda; também isto é vaidade" (3); e ainda, “Todo trabalho do homem é para a sua boca; e, contudo, nunca se satisfaz o seu apetite” (4).

A primeira passagem remete a alguns aspectos não preenchidos da existência adâmica, ou seja, a solidão humana (observação: não vou entrar no debate de que Adão sentia-se deprimido ou infeliz, mas de que o próprio Deus acreditava que o homem seria mais “feliz” se houvesse alguém para desfrutar e compartilhar a vida no “paraíso”) e a ausência de autonomia (no sentido de dependência da mulher e do próprio YHWH). A segunda, terceira e quarta passagem remetem à dois sinônimos de incompletude: insaciabilidade e constante insatisfação (ou ânsia de poder, riqueza, conhecimento etc). Na concepção do autor, a busca incessante por riqueza e conforto material seriam fúteis, visto que não permitem alcançar a felicidade plena.

Paralelamente, no campo da literatura, encontramos um sujeito icônico do imaginário alemão: Fausto, ou Dr. Fausto, que exprime uma profunda insatisfação concernente ao seu conhecimento adquirido, que, consequentemente, o faz desejar obter mais “sabedoria” ao ponto de fazer um pacto de sangue com Mefístoles, um demônio, que promete saciar seus desejos, em troca de servidão.

                            Faust et Méphistophélès, peinture d'Eugène Delacroix, 1897-8 (5).

Pedro Tavares, psicanalista e literato-germanista, traça um paralelo da insatisfação faustiana com a melancolia do personagem e apresenta a definição de Marie-Claude Labombotte sobre a condição melancólica:

La compulsion à percevoir des ensembles logiques qui s'évanouissent sitôt formés, l'impossibilité de mettre un terme à cette ratiocination intellectuelle qui renforce la sensation d'épuisement, le sentiment de détenir plus que les autres les éléments d'une vérité qui, cependent, s'éclipsent quand on croit les saisir, tout ceci contribue à qualifier la situation du sujet mélancolique de situation exceptionnelle, marquée par la répetition et la fatalité (6).

A compulsão para perceber totalidades lógicas que se esvaecem tão logo são formados, a impossibilidade de pôr a termo uma racionalização intelectual que reforça a sensação de esgotamento, o sentimento de deter mais que os outros os elementos de uma verdade que, no entanto, se oculta quando se crê agarrá-la, tudo isto contribui para qualificar a situação do sujeito melancólico de uma situação de exceção, marcada pela repetição e pela fatalidade.

Dialogando com o campo da Psicologia, Sigmund Freud e Jacques Lacan entendem que os seres humanos são insuficientes.

“Durante a fase fálica, diante de seus complexos Edipianos, o sujeito vê-se diante de sua incompletude. E ao longo das experiências e abstrações, ao amadurecer, temos a sensação de que não somos completos. Somos seres faltosos, nossa relação com o mundo é marcada pela existência da falta. Somos marcados pela insuficiência. Não somos sujeitos plenos” (7).

Em resumo, para ambos autores, " não é possível obter satisfação plena e isso é inerente à condição de existir" (8).

Finalizando a pequena, mas estimulante reflexão, trago a máxima do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, “Das Leben schwingt, gleich einem Pendel, hin und her, zwischen dem Schmerz und der Langeweile (9)”. ("A vida oscila para frente e para trás, como um pêndulo, entre a dor [ou o sofrimento] e o tédio."). André Conte-Sponville esclarece: “sofrimento porque desejo o que não tenho e sofro esta falta; tédio porque tenho o que, por conseguinte, já não desejo” (10).

Bibliografia e notas:

1 - (Bíblia Almeida Revista e Corrigida, 2009, Gênesis 2:18).

2 - (Bíblia Nova Versão Internacional, Provérbios 27:20).

3 - (Bíblia Almeida Corrigida Fiel, Eclesiastes 5:10).

4 - (Bíblia Almeida Revista e Atualizada, Eclesiastes 6:7).

5 - Faust et Méphistophélès, peinture d'Eugène Delacroix, 1897-8. The Wallace Collection. Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/61/Delacroix_-_Faust_and_Mephistopheles%2C_1827-8.jpg>. Acesso em: 01 fev. 2024.

6 - Lambotte, 2003, p.63 apud TAVARES, Pedro Heliodoro de Moraes Branco. Fausto como paradigma da melancolia. Rev. Mal-Estar Subj., Fortaleza, v. 9, n. 2, p. 459-486, jun.  2009.   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518-61482009000200005&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 01 fev. 2024.

7 – BAZANTE, Renata. Incompletude humana segundo as religiões e a psicanálise. Psicanálise Clínica. Disponível em:<https://www.psicanaliseclinica.com/incompletude-humana/>. Acesso em: 01 fev. 2024.

8 – Idem.

9 - SCHOPENHAUER, A. Die Kunst zu beleidigen. München, Germany: C. H. Beck oHG, 2002: 77.

10 - LIMA, Daniel, 2002 apud COMTE-SPOINVILLE, A. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. Disponível em: <https://www.geak.com.br/site/upload/midia/pdf/imortalidade_e_a_espera_pela_felicidade_-_final.pdf#:~:text=Esta%20viv%C3%AAncia%2C%20e%20a%20felicidade%20que%20dela%20decorre%2C,seja%20na%20terra%20ou%20mesmo%20na%20outra%20vida14.>. Acesso em: 01 fev. 2024.

A dialética erística schopenhaueriana (Parte 2)

Sem delongas, dando continuidade à postagem anterior, serão apresentadas 38 estratégias da dialética erística schopenhaueriana, acrescidas de exemplos.

São elas:

1 - Generalize as afirmações do seu oponente (ou ampliação indevida): Consiste em levar a afirmação do oponente além de sua fronteira natural, toma-la e interpretá-la da maneira mais ampla e generalista possível e exagerá-la; ou pelo contrário, tomá-la no sentido mais restrito possível, fechá-la nos menores limites possíveis, porque quanto mais geral se torna uma afirmação, mais ataques ela pode receber. A defesa precisa focar na afirmação exata dos puncti ou status controversiae. Resumo: Primeiro distorça a tese do adversário; segundo, ataque a distorção e não a própria tese.

Exemplo: Pessoa A diz: “A paz de 1814 trouxe de volta a independência para todos os estados hanseáticos alemães”. Pessoa B retruca a instantia in contrarium de que a cidade de Danzig perdeu a independência que ganhou de Bonaparte com aquela paz. Pessoa A defende-se assim: “Eu disse todas as cidades hanseáticas alemãs: Danzig era uma cidade hanseática polonesa”.

2 - Homonímia (ou homonímia sutil) — Mude os significados das palavras-chave do oponente: Deve-se utilizar a homonímia para estender a afirmação estabelecida para o que, com exceção da semelhança entre as palavras, tem pouco ou nada a ver com o assunto discutido; então refutá-la com vigor para dar a impressão de que se refutou a afirmação original.

Observação: sinônimos são duas palavras para o mesmo conceito: homônimos são dois conceitos, que são descritos com a mesma palavra. Em casos mais sutis, o sofisma consegue enganar, especialmente quando os conceitos cobertos pela mesma palavra estão relacionados entre si e tendem a ser combinados.

Exemplo: a) “O senhor ainda não foi iniciado nos mistérios da filosofia kantiana.”; b) “Ah, não quero saber de mistérios”.

3 - Confunda a argumentação (ou “mudança de modo”): Outra estratégia é interpretar a afirmação estabelecida de maneira relativa, como se tivesse sido feita de maneira geral e absoluta, ou pelo menos em um sentido completamente diferente, e então refutá-la pelo sentido que o falante não quis.

Exemplo 1: o mouro é negro, entretanto os dentes são brancos; assim ele é negro e não negro ao mesmo tempo.

Exemplo 2: A defende a descriminalização do aborto; B argumenta que ao descriminalizar o aborto o homicídio de qualquer natureza será descriminalizado.

4 - Prepare o caminho, mas oculte a conclusão: Quando alguém quiser tirar uma conclusão, não deve deixar que ela seja prevista, mas deve fazer com que as premissas sejam admitidas uma a uma, sem perceber, misturando-as aqui e ali durante a sua fala; senão o oponente tentará todos os tipos de contra-ataque. Ou quando se estiver em dúvida se o oponente vai admiti-las, apresentar as premissas dessas premissas; crie pré-silogismos e faça com que as premissas de diversos deles sejam admitidas de maneira desordenada. Desse modo, o jogo fica escondido até que se obtenham todas as admissões necessárias.

5 - Use as premissas do seu oponente contra ele: Também se pode utilizar como prova de uma afirmação verdadeira outra afirmação falsa quando o oponente não quer admitir as verdadeiras, seja porque ele não entende sua verdade ou porque entende que se as aceitar, a sua argumentação será aceita por todos. Nesse caso, tomam-se as afirmações falsas por si, mas verdadeiras ad hominen, e argumenta-se conforme a maneira de pensar do oponente, ex concessis. Pois a verdade pode surgir também de afirmações falsas: ao mesmo tempo que as falsas nunca podem surgir das verdadeiras. Mesmo assim é possível refutar as afirmações falsas do opositor por meio de outras afirmações falsas que ele considera verdadeiras. Neste caso, temos de adaptar ao estilo de pensamento dele.

Exemplo: Se o seu oponente é seguidor de uma seita da qual não conjugamos do mesmo pensamento, podemos usar as opiniões dessa seita contra ele, como princípios.

6 - Mude as palavras do oponente para confundi-lo: Faz-se um petitio principii (petição de princípio) velado, no qual se postula o que se quer tanto refutar. 1. Sob outro nome, por exemplo em vez de honra, boa reputação; em vez de virgindade, virtude, e assim por diante. Ou com conceitos intercambiáveis: animais de sangue vermelho em vez de vertebrados. Ou 2. Fazendo uma pressuposição geral sobre o ponto específico em discussão. Por exemplo, defender a insegurança da medicina ao postular a insegurança de todos os conhecimentos humanos. 3. Se, vice-versa, duas afirmações resultam uma da outra, e uma precisa ser provada, deve-se postular a outra. 4. Se uma afirmação geral precisa ser provada, deve-se fazer o oponente admitir todas as suas particularidades. Essa estratégia é o oposto da número 2.

7 - Faça o oponente concordar de forma indireta (ou perguntas em desordem): quando o debate se desenrola de maneira um tanto rigorosa e formal e se deseja claramente chegar a um acordo, então quem fez as afirmações e quer prová-las deve agir contra o oponente, colocando-lhe questões para demonstrar a verdade a partir de suas conclusões. Esse método erotemático (também chamado de socrático) foi especialmente utilizado pelos antigos. A ideia é fazer muitas perguntas amplas de uma vez para esconder o que se quer que o oponente admita e, além disso, apresentar rapidamente o argumento resultante de suas admissões; assim, quem é lento para compreender não consegue acompanhar com exatidão e deixa passar os possíveis erros ou falhas na demonstração.

8 - Desestabilize o oponente (ou encolerizar o adversário): Ao provocar raiva o oponente sai fora de seu equilíbrio e racionalidade para julgar corretamente e perceber a própria vantagem. É possível fazê-lo ficar com raiva por meio de repetidas injustiças, de algum tipo de truque e pela insolência.

9 - Disfarce seu objetivo final (ou perguntas em ordem alterada): As perguntas quando não são feitas na ordem que levaria a uma conclusão possível podem levar a uma confusão muito grande. O oponente não sabe aonde você quer chegar e não pode se precaver. Também é possível usar suas respostas para tirar diferentes conclusões, até contrapô-las, de acordo com suas características. Isto está relacionado à estratégia número 4, segundo a qual se deve mascarar as próprias ações.

10 - Use a psicologia da negação (ou pista falsa): Quando se percebe que o oponente nega de maneira proposital (e infantil) as afirmações cuja aprovação seria usada para a nossa frase, deve-se perguntar o oposto da oposição utilizada, como se estivéssemos ansiosos por sua aprovação; ou deve-se pelo menos apresentar as duas para escolha, para que ele então não perceba qual frase queremos que seja aprovada.

11 - Tome um conceito geral para o caso particular (ou salto indutivo): Faz-se uma indução e o oponente cede em casos individuais, pelos quais ela deve ser apoiada. Então não se deve perguntar a ele se também admite a verdade em geral que surge desses casos, mas sim introduzi-la depois como estabelecida e reconhecida. Nesse meio-tempo, ele próprio vai passar a acreditar que a admitiu, e isso vai acontecer também com os ouvintes, porque vão se lembrar das diversas perguntas sobre cada caso específico e vão supor que elas devem, claro, ter alcançado seu objetivo.

12 - Uso sutil dos vocábulos — renomeie as mesmas palavras (ou manipulação semântica): Se a discussão for sobre um conceito geral, que não tem um nome específico e precisa ser descrito por meio de uma parábola, deve-se escolher a parábola que favorece nossa afirmação.

Exemplo 1: Quando mencionam-se os nomes que descrevem os dois partidos políticos da Espanha: servis e liberais, nomes escolhidos obviamente pelos últimos. O nome “protestantes” é escolhido por eles mesmos, assim como “evangélicos”, mas a palavra herege foi escolhida pelos católicos.

Exemplo 2: Quando se trata do nome das coisas, o oponente propõe alguma alteração, então a chamamos de “subversão”, pois a palavra tem conotação negativa. Fazemos o contrário quando nós mesmos é que fazemos a sugestão. No primeiro caso, pode-se chamar a contraposição de “ordem existente”, no segundo de “ordem opressora”. O que pode ser chamado de maneira imparcial e involuntária de “culto” ou “ensinamento público da fé” é chamado de “devoção”, “religiosidade” por um seguidor; e de “fanatismo” ou “superstição” por um oponente. No fundo, esse é um petitio principii perfeito: o que alguém quer provar é afirmado no início da definição, da qual resulta um simples julgamento analítico. O que alguém chama de “garantir a segurança de uma pessoa” ou “colocar sob custódia”, seu oponente chama de “prender”. Um orador muitas vezes revela sua intenção pelos nomes que dá às coisas. Um diz “o clero” e o outro diz “os padres”. De todos os truques, esse é o mais utilizado, de maneira instintiva. Excesso de fé = fanatismo; passo em falso ou caso amoroso = adultério; ambiguidade = obscenidade; desequilíbrio econômico = bancarrota; pela influência e pela ligação = pela corrupção e pelo nepotismo; reconhecimento sincero = bom pagamento.

13 - Apresente uma segunda opção inaceitável (ou alternativa forçada): Para fazer com que o oponente aceite uma afirmação, deve-se dar a contrária também e deixá-lo escolher; e essa afirmação contrária deve ser articulada muito claramente para que não se contradiga e ele aceite a sua afirmação, que é feita de maneira a parecer bastante provável em relação a outra.

Exemplo: Se o objetivo é fazê-lo admitir que alguém deve fazer tudo o que o seu pai lhe diz; então perguntamos: “Deve-se obedecer ou desobedecer aos pais acima de todas as coisas?”. Ou caso se afirme que uma coisa acontece com frequência, então perguntamos se por frequente compreendemos poucos ou muitos casos; ele dirá “muitos”. É como quando ao se colocar o cinza perto do preto, ele pode ser chamado de branco; e quando ele é colocado perto do branco, pode ser chamado de preto.

14 - Acuando os tímidos (ou falsa proclamação de vitória): É um golpe insolente a situação em que, depois de o oponente ter respondido a muitas perguntas sem que as respostas dessem o benefício de uma conclusão favorável que se esperava, nós nos precipitamos para a conclusão desejada — apesar de ela não ser uma consequência da afirmação —, como se tivesse sido provada, e proclamá-la em tom triunfante. Se o oponente é tímido ou burro, e se quem ataca é atrevido e tem boa voz, pode-se conseguir ter razão. Isso pertence à fallacia non causae ut causae [ilusão por meio da pressuposição da prova sem a prova].

15 - Utilize paradoxos — para situações difíceis (ou "anulação do paradoxo"): Quando se faz uma afirmação paradoxal e achamos difícil prová-la, apresenta-se ao oponente uma afirmação correta para ele aceitar ou rejeitar, mas cuja verdade não seja muito palpável, como se quiséssemos tirar provas dela. Se ele recusar por suspeitar de um truque, então a levamos ad absurdum e ganhamos; mas se ele aceitá-la, então teremos dito alguma coisa inteligente e teremos de ver o que vai acontecer. Ou acrescentamos a estratégia anterior e assim garantimos que nosso paradoxo seja comprovado. Trata-se de uma insolência imensa, mas isso acontece por experiência, e existem pessoas que praticam tudo isso de maneira instintiva.

16 - Desqualifique o argumento do outro (ou várias modalidades do argumentum ad hominem): Argumenta ad hominem ou ex concessis. Diante de uma afirmação do oponente, deve-se tentar procurar alguma inconsistência — mesmo que seja apenas aparente — em relação a alguma outra afirmação que ele fez ou admitiu, ou com os princípios da escola ou da crença que ele tenha elogiado e aprovado, ou com as ações de quem apoia a mesma crença, ou daqueles que dão a ela um apoio apenas aparente ou falso, ou com suas próprias ações ou desejo de ação.

Exemplo: Se o seu opositor defende, por exemplo, o suicídio, então exclame: “por que então você não se enforca?”. Ou se ele afirma, por exemplo, vivendo em Berlim, que a cidade é um lugar muito desagradável para morar, poderia lhe dizer em seguida: “Por que você não vai logo embora no primeiro trem?”. Sempre é possível usar esse tipo de truque, de desacreditar a crença do oponente contradizendo-o com suas ações.

17 - Faço uso da dupla interpretação (ou distinção de emergência): Quando o oponente pressiona com uma contraevidência, podemos nos salvar por meio de uma diferenciação sutil, algo que não tínhamos pensando antes. Este recurso pode ser utilizado quando a questão permite um outro significado ou uma dupla interpretação.

18 - Mude o curso; interrompa antes da perda certa (ou uso intencional da mutatio controversiae): Se observamos que o oponente inicia uma argumentação com a qual vai nos derrotar, não se deve deixar que ele chegue a sua conclusão, ou seja, não se deve permitir que ele chegue ao fim. Deve-se interromper o andamento da discussão em um bom momento, retirando-se, distraindo-o ou levando a discussão para outras pessoas. Em resumo, realizar uma mutatio controversiae.

Observação: a estratégia é muito utilizada por políticos que esquivam-se de perguntas pontuais.

19 - Desfoque; depois encontre uma brecha (ou fuga do específico para o universal): Se o oponente nos desafiar de maneira expressa e fizer uma objeção contra algum ponto específico de nossa afirmação, contra o que não temos nada a dizer, então precisamos utilizar a generalização e devolver o ataque da seguinte forma: Se somos chamados a dizer por que determinada hipótese da física não pode ser aceita, devemos falar sobre a ilusão do conhecimento humano e citar vários exemplos.

20 – Não arrisque num jogo ganho (o uso da “fallacia non causae ut causae”): Quando já houver testado as premissas com o oponente e ele as aceitou, não se deve buscar esta confirmação novamente, e sim apresentá-las como verdades absolutas. E mesmo que falte uma ou outra premissa, deve-se considerar que também estas foram admitidas, e partir para a conclusão. O que não deixa de ser um uso da fallacia non causae ut causae.

21 - Use as mesmas armas (ou preferir o argumento sofístico): Com um mero argumento aparente ou sofístico do oponente, podemos resolver isso por meio de uma discussão de sua estranheza e superficialidade; mas é melhor responder a ele com contra-argumentos aparentes e sofísticos e assim acabar com ele. Disso depende não a verdade, mas a vitória. Se ele dá, por exemplo, um argumentum ad hominem, é suficiente invalidá-lo com um contra-argumento ad hominem (ex concessis). E, em vez de estabelecer o estado verdadeiro da questão, caso ele se apresente, optar por esse caminho costuma encurtar a discussão.

22 - Reduza a força do argumento principal (ou falsa alegação de petitio principii): Se o oponente exige que se admita algo que é decorrente exatamente do ponto em discussão, então nos recusamos a fazê-lo ou permitir que ele continue declarando que aquilo é uma petitio principii (petição de princípio), redundante e já está resolvido. Ele e os ouvintes perceberão uma afirmação próxima do ponto de discussão como se fosse idêntica, e assim você o privará de seu melhor argumento.

23 - Provoque o oponente: (ou impelir o adversário ao exagero): A contradição e a briga estimulam o exagero das afirmações. Podemos estimular o oponente por meio da contradição e levar uma afirmação além dos seus próprios limites, afirmação essa que fora desses limites pode deixar de ser verdadeira. E quando refutamos esse exagero é como se refutássemos sua frase original. Por outro lado, temos de tomar cuidado para não ser levados por contradições ao exagero ou a ampliar sua própria afirmação. Muitas vezes, o próprio oponente procura diretamente ampliar nossa afirmação para além do que pretendíamos. É preciso impedi-lo logo e trazê-lo de volta ao limite da afirmação: “Foi o que eu disse e nada mais”.

24 - Torne a alegação do outro inconsistente (falsa reductio ad absurdum): O oponente faz uma afirmação, e por meio de falsas inferências e distorções de suas ideias, extraímos dela outras afirmações que ela não contém e que ele não quis dizer de jeito nenhum, ou melhor, que são absurdas ou perigosas. Assim parece que a primeira afirmação deu origem a outras que são inconsistentes consigo mesmas ou com algum reconhecimento da verdade, então ela parece ser refutada de maneira indireta. A apagogia é uma nova utilização da fallacia non causae ut causae.

25 - Use a exceção para destruir a tese (ou falsa instância): Isso tem a ver com a apagogia por meio de uma instância exemplum in contrarium. Por exemplo, a sentença “todo ruminante tem chifres” é derrubada pela única instância do camelo.

A instância é um caso da aplicação da verdade generalista, e algo não universalmente verdadeiro é inserido em sua definição fundamental, o que a torna inválida. Entretanto, é possível que haja enganos, e devemos atentar para o seguinte em relação às instâncias que o oponente pode criar: 1. Se o exemplo é realmente verdadeiro, pois existem problemas cuja única solução real é que o caso em questão não seja verdadeiro — por exemplo, muitos milagres, histórias de fantasmas e assim por diante; 2. Se ele realmente pertence ao conceito da verdade assim apresentada, pois se apenas aparenta pertencer, então a questão deve ser é resolvida com distinções precisas; 3. Se ele realmente contradiz a verdade apresentada: muitas vezes isso também é apenas aparente.

Exemplo. Um alvo de alegações utilizadas para destruir "grandes feitos" por uma única acusação (visando desqualificar a honra) foi Joaquim Barbosa, que, considerado um herói na luta contra a corrupção no Brasil, virou o foco de opositores, quando o mesmo tentou barrar a criação de novos tribunais regionais, por serem custosos. Algumas pessoas criticaram seu temperamento, taxando-o de desequilibrado, outros acusaram-no de comprar um apartamento nos EUA de forma ilegal.

26 - Reforce um aspecto no oponente; depois destrua o seu valor (ou retorsio argumenti): Um golpe brilhante é o retorsio argumenti: quando o argumento que o oponente quer usar para si poderá ser mais bem usado contra ele. Por exemplo, ele diz: “trata-se de uma criança, deve-se dar um desconto”. Retorsio: “Mesmo por ser uma criança, devemos puni-la, para que ela não insista em seus hábitos ruins”.

27 - Deixe o seu oponente desequilibrado (ou usar a raiva): Se o oponente fica bravo de maneira inesperada com um argumento, então deve-se insistir nele com mais afinco, não simplesmente por ser bom deixá-lo com raiva, mas porque se supõe que o ponto fraco de uma linha de pensamento foi atingido e que nesse ponto o oponente está mais vulnerável para ser atacado

28 - Ganhe a simpatia da audiência e ridicularize o adversário (ou argumento ad auditores): Este é especialmente aplicável quando pessoas cultas discutem diante de uma plateia leiga. Quando não se tem nenhum argumentum ad rem nem mesmo um ad hominem, então se faz um ad auditores, isto é, uma objeção inválida, cuja falta de validade apenas um especialista consegue ver: o oponente, mas não a plateia. E para ela, ele foi derrotado, em especial quando a objeção à afirmação dele é tratada como algo ridículo. As pessoas estão prontas para rir e temos o riso como nosso aliado. Para demonstrar a nulidade da objeção, o oponente precisaria não só de uma longa discussão como também retornar aos princípios da ciência ou outros assuntos; e para isso ele não encontra ouvintes com facilidade.

Exemplo: O oponente diz “na formação original dessa cordilheira, o granito e outros elementos de sua composição foram transformados em fluido por causa da alta temperatura — o calor deveria ser de 250ºC, e quando a massa se cristalizou foi coberta pelo mar”. Usamos o argumentum ad auditores, de que nessa temperatura, na verdade qualquer uma acima de 100ºC, o mar já teria fervido faz tempo e se transformado em vapor no ar. Os ouvintes riem. Para refutar a objeção, ele precisaria demonstrar que o ponto de ebulição não depende apenas da temperatura, mas também da pressão da atmosfera, e ainda que cerca de metade da massa do mar tivesse se transformado em vapor, a pressão teria aumentado tanto que o volume restante não poderia ferver nem mesmo a 250ºC. Mas ele não alcançaria a plateia com uma explicação dessas, pois, antes disso, ele teria de explicar física a não físicos.

29 - Não se importe em fugir do assunto se estiver a ponto de perder: Se percebemos que seremos golpeados, fazemos um desvio, isto é, começamos de repente a falar de algo completamente diferente, como se tivesse a ver com a questão discutida e fosse um argumento contra o oponente. Isso pode ser feito sem presunção quando o desvio tem, na verdade, alguma relação geral com a questão; mas pode ser tomado como uma insolência se não tem nada a ver com o assunto, e só é levantado para atacar o oponente.

Exemplo: Eu elogio o fato de que na China não há nobreza por nascimento e os cargos são distribuídos mediante provas de capacidade intelectual. Meu oponente defende que a erudição não torna uma pessoa mais competente para um cargo que a vantagem de um nascimento nobre (a qual admira). Discutimos e ele se sai mal. Assim ele faz um desvio, dizendo que na China cidadãos de todas as classes eram punidos com bastões, o que ele relaciona com o grande consumo de chá e acusa os chineses das duas coisas. Segui-lo nisso significaria ser levado a abrir mão de uma vitória já ganha.

O desvio é insolente quando o assunto em questão é completamente abandonado e suscita, por exemplo, objeções como: “Sim, você acabou de afirmar isso” e assim por diante.

Então o argumento vai de algum modo para o “lado pessoal”. A rigor, esse é um ponto intermediário entre o argumentum ad personam e o argumentum ad hominem.

Essa estratégia é tão instintiva que pode ser vista em todas as discussões entre pessoas comuns. Se uma pessoa faz um comentário pessoal contra a outra, esta, em vez de responder por meio da refutação, deixa como está — como se admitisse — e responde fazendo algum outro tipo de comentário sobre o oponente. Ela faz como Cipião, que atacou os cartagineses não na Itália, mas na África. Na guerra, tal desvio pode ser útil em determinados momentos. Em discussões, ele é ruim, pois o comentário permanece, e quem olha de fora escuta o pior que pode ser dito a respeito das duas partes. Esta é uma estratégia que deve ser usada apenas faute de mieux [na falta de coisa melhor].

30 - Aposte em credenciais e acue a todos (ou argumentum ad verecundiam): Sobre o respeito ao argumento utilizado implica que, em vez de motivos, utiliza-se a autoridade, conforme o grau de conhecimento do oponente. O jogo é mais fácil quando se tem uma autoridade que o oponente respeita. Por isso, quanto mais limitados forem seus conhecimentos e habilidades, maior é o número de autoridades que pesam sobre ele. Mas, se seus conhecimentos e habilidades forem muitos, daí serão poucas; na verdade, quase nenhuma. Ele pode, talvez, admitir a autoridade de um profissional versado em uma ciência, uma arte ou um ofício sobre o qual ele pouco sabe; mas mesmo assim olhará com suspeitas. Por outro lado, pessoas comuns têm profundo respeito por homens de todos os tipos. Eles não sabem que um homem que faz da coisa que ama sua profissão não a exerce pela coisa em si, mas pelo dinheiro que recebe; ou, na maioria dos casos, é raro um homem que ensine uma disciplina a conheça bem, pois se fosse um profundo estudioso não teria tempo para ensinar. Mas existem muitas autoridades que gozam do respeito da multidão, e se você não tiver nenhuma que seja adequada, pode pegar uma que assim se pareça; ou você pode citar o que alguém disse em outro sentido ou em outras circunstâncias. Os leigos têm um respeito peculiar por um floreio em grego ou em latim. Também é possível, se necessário, não só forçar a importância dessas autoridades, mas falsificá-las, ou citar alguma coisa completamente inventada: a maioria das pessoas não está com o livro por perto e também não saberia como lidar com ele se o tivesse.

Exemplo: Um pároco francês, recusando-se a ser obrigado a pavimentar a rua em frente à sua casa como os outros moradores, citou um ditado que disse ser bíblico: paveant illi, ego non pavebo [todos podem tremer, eu não vou tremer]. Isso convenceu os responsáveis pela cidade que confundiu a pronúncia em latim com o seu sentido em francês, paver, de pavimentar.

31 - Complique o discurso de seu oponente (ou incompetência irônica): Quando não tiver nada para contradizer os argumentos defendidos pelo oponente, declare-se incompetente com um toque de ironia. “O que você diz agora ultrapassa meu fraco poder de compreensão: pode estar certo; só que não consigo entender, e me contenho para expressar qualquer opinião a respeito.” Dessa maneira você insinua aos presentes, com quem você tem boa reputação, que o que seu oponente diz é besteira. Assim, quando a Crítica da Razão Pura de Kant foi publicada, ou melhor, quando começou a fazer barulho, muitos professores de velhas escolas ecléticas declararam não compreendê-la, na esperança que seu fracasso resolvesse a questão. Mas quando alguns seguidores da nova escola mostraram a eles que tinham razão e eles realmente é quem não tinham entendido, eles ficaram de muito mau humor.

Deve-se utilizar o truque só quando se tem certeza de que os ouvintes o têm em melhor estima do que a seu oponente. Por exemplo, um professor contra seus estudantes. Na verdade, isso pertence à estratégia anterior: trata-se de afirmar de forma particularmente maliciosa a própria autoridade em vez de apresentar argumentos. O contra-ataque é dizer: “Desculpe-me, deve ser fácil para você compreender isso com seu penetrante intelecto. E, a culpa é minha por conta da péssima apresentação que fiz do assunto”; e continuar a esfregar a coisa facilitada na cara do oponente de modo que ele compreenda e fique bem claro que era tudo culpa dele. Assim nos esquivamos do ataque: ele quis apenas insinuar que estávamos dizendo “besteira”, e nós provamos que ele é “ignorante no assunto”. Tudo com a maior gentileza.

32 - “Cole” um sentido ruim na alegação do outro (ou rótulo odioso): Se somos confrontados com uma afirmação do oponente, há um caminho curto para se livrar disso ou pelo menos torná-la suspeita, colocando-a em alguma categoria odiosa, mesmo se a ligação for apenas aparente ou até sutil.

Exemplo: “Isso é maniqueísmo”, “arianismo”, “pelagianismo”, “idealismo”, “spinozismo”, “panteísmo”, “brownianismo”, “naturalismo”, “ateísmo”, “racionalismo”, “espiritualismo”, “misticismo”, e assim por diante.

Com isso presumimos duas coisas: 1. Que cada afirmação realmente se identifica ou pelo menos se encaixa em cada categoria, então exclamamos: “Ah, já sabíamos!”; e 2. Que sob essas categorias pesam uma qualidade ruim e não contêm nenhuma palavra válida.

33 - Invalide a teoria pela prática: “O que pode estar certo na teoria na prática está errado.” Por meio desse sofisma aceitam-se as premissas mas nega-se a conclusão: em contradição com a regra a ratione ad rationatum valet consequentia [do motivo à consequência, vigora a consequência]. Essa afirmação baseia-se em uma impossibilidade: o que em teoria está certo deve valer também na prática; se não valer, então existe um erro na teoria, alguma coisa não foi percebida e não foi levada em consideração, portanto isso está errado também na teoria.

34 - Encontre e explore o ponto fraco (ou resposta ao meneio de esquiva): Quando o oponente não dá uma resposta ou informação direta para uma pergunta ou argumento, mas evade-se por meio de outra pergunta ou de uma resposta indireta, ou faz alguma afirmação que não tem a ver com a questão, e, em geral, tenta mudar de assunto, isso é um sinal (mesmo sem que ele saiba) de que encontramos um ponto fraco: há certo silêncio da parte dele. Portanto devemos insistir no ponto que propusemos e não deixar o oponente fugir dele; mesmo quando ainda não descobrimos de que realmente se trata a fraqueza que encontramos.

 35 - Mostre ao seu oponente que está lutando contra os próprios interesses (ou persuasão pela vontade): Em vez de agir sobre o intelecto por meio de argumentos, age-se sobre a vontade do oponente e dos ouvintes como se fossem motivos; e se o oponente e os ouvintes têm o mesmo interesse, logo serão conquistados por nossa opinião, mesmo que ela tenha sido tirada do manicômio; em geral, cinco gramas de vontade pesam mais do que cinquenta quilos de conhecimento e convicção.

É verdade que isso funciona só em circunstâncias especiais. Se conseguíssemos que o oponente percebesse que a opinião dele, se comprovada, arruinaria seus interesses, então ele abriria mão dela tão rápido como se estivesse segurando ferro quente sem querer. Por exemplo, um clérigo defende um dogma filosófico: fazemos que ele veja que isso contradiz indiretamente um dogma fundamental de sua igreja, e ele vai abrir mão dele.

Um proprietário de terras ressalta a superioridade das máquinas na Inglaterra, onde uma máquina a vapor faz o trabalho de muitas pessoas. Deve-se fazê-lo entender que assim que os carros forem puxados por máquinas a vapor, o valor dos numerosos cavalos de seu haras também deve cair — e veremos o que acontece. Nesses casos, todos sentem como é duro sancionar uma lei injusta consigo mesmo: Quam temere in nosmet legem sancimus iniquam [com que irresponsabilidade criamos uma lei injusta conosco].

O mesmo acontece quando os ouvintes pertencem à mesma seita, sociedade, indústria, clube etc. que nós, mas não o oponente. Não devemos nunca permitir que a tese dele seja verdadeira. Assim que percebermos que ela contraria os interesses gerais dos participantes dessa sociedade ou coisa parecida, todos os ouvintes acharão que os argumentos do oponente são fracos e abomináveis, por mais excelentes que sejam, e os nossos, apropriados e corretos, ainda que tirados do ar. O coro se pronunciará em voz alta a nosso favor, e o oponente sairá de campo envergonhado. Na maioria das vezes, os ouvintes acreditarão ter votado segundo sua plena convicção. O que não é de nosso interesse parece absurdo ao intelecto na maioria das vezes. Intellectus luminis sicci non est recipit infusionem a voluntate et affectibus. [O intelecto não é uma luz que queima sem óleo, mas que se alimenta das paixões.] Esta estratégia poderia ser descrita como “colher a árvore pela raiz”, mas é comumente chamada de argumentum ab utili.

36 - Confunda e assuste o oponente com palavras complicadas (ou discurso incompreensível): Quando o seu oponente secretamente tem consciência de suas fraquezas, então está acostumado a ouvir muitas coisas que não entende e fingir que as entende; pode-se então impressioná-lo com besteiras que parecem profundas e eruditas, e que o destituam de sua audição, visão e pensamento; e usar isso como a prova mais irrefutável do que afirmamos. É fato conhecido que alguns filósofos utilizaram esses truques com brilhante sucesso até diante de todo o público alemão.

Exemplo: Goldsmith, em The Vicar of Wakefield: “Certo, Frank”, grita o senhor de terras, “eu queria sufocar com esta taça, mas uma boa moça vale mais que todo o sacerdócio da Criação. Todos os seus décimos e truques não passam de uma fraude planejada, uma enganação dos diabos e posso provar.” “Eu gostaria que o senhor o fizesse”, clama meu filho Moisés, “e acredito”, continua, “que eu deveria estar em condições de responder ao senhor.” “Excelente, meu senhor”, diz o senhor de terras, que sem mais delongas solta fumaça em sua cara e pisca para o restante da companhia, para nos preparar para uma piada: “Se vocês estão dispostos a uma discussão tranquila sobre o assunto, então estou pronto para aceitar o desafio. E primeiro: vocês são a favor de um tratamento analógico ou dialógico?”. “Eu sou a favor de um tratamento racional”, diz Moisés, todo satisfeito por ter encontrado a possibilidade de discutir. “Ótimo”, disse o senhor de terras, “e antes de tudo, espero eu, o senhor não vai negar, que tudo o que é, é: se o senhor não garantir isso para mim, não posso prosseguir.” “Tudo bem”, responde Moisés, “acho que posso garantir isso, e tirar o melhor proveito.” “Assim também espero”, replicou o outro, “o senhor vai garantir que uma parte é menor que o todo.” “Também garanto isso”, disse Moisés, “nada mais certo e razoável.” “Eu espero”, disse o senhor de terras, “que o senhor não negue que os três ângulos de um triângulo são iguais a dois ângulos retos.” “Nada pode ser mais claro”, replica o outro e olha em volta com seu habitual ar de importância. “Muito bem”, diz o senhor de terras, falando muito rápido, “as premissas estão então definidas, prossigo para chamar a atenção, de que a concatenação das atuais existências, que progride em uma proporção dupla e recíproca, leva naturalmente a um dialogismo problemático, o que em certo grau prova que a essência da espiritualidade se aplica ao segundo predicado.” “Pare, pare”, diz o outro, “isso eu nego. O senhor acredita que posso me submeter de maneira obediente a tais proposições tão heterodoxas?” “O quê?”, responde o senhor de terras como se estivesse furioso, “não se submeter! Responda-me uma única pergunta clara. O senhor acredita que Aristóteles tem razão quando diz que os parentes estão relacionados?” “Sem dúvida”, responde o outro. “Se isso é assim, então”, diz o senhor de terras, “responda exatamente à minha pergunta: o senhor considera minha pesquisa analítica da primeira parte do meu entimema (argumento) insuficiente secundum quoad ou quoad minus? E me diga os seus princípios, e agora mesmo.” “Isso eu preciso recusar”, diz Moisés, “e não compreendo direito o que a sua discussão quer provar; mas se o senhor retornar a uma única e simples afirmação, posso lhe dar a resposta.” “Ah, meu senhor”, diz o senhor de terras, “sou o seu humilde servo; mas percebo que o senhor quer que eu o equipe com argumentos e compreensão de lambuja. Não, meu senhor, eu protesto, o senhor é muito difícil para mim.” Isso despertou uma risada alta contra o pobre Moisés, que era a única figura infeliz dentre um grupo de rostos satisfeitos; ele também não disse mais uma sílaba durante todo o divertimento.

37 - Destrua a tese boa pela prova frágil (ou tomar a prova pela tese): Quando o oponente também tem razão na questão, mas felizmente escolhe uma evidência ruim, torna-se fácil para nós rebater essa evidência, e então estendemos isso para a questão como um todo. Na verdade, isso se resume a trocar um argumentum ad hominem por um ad rem. Se não ocorrer a ele, ou aos presentes, nenhuma evidência correta, teremos ganho. Por exemplo, quando alguém apresenta uma evidência ontológica da existência de Deus que seja muito fácil de refutar. Essa é a maneira pela qual alguns advogados ruins perdem uma boa causa: querem justificar algo por meio de uma lei que não se aplica àquilo quando a adequada não lhes passa pela cabeça.

38 - Como último recurso, parta para o ataque pessoal: Quando se percebe que o oponente é superior e que vamos nos dar mal, então devemos partir para o lado pessoal, ser ofensivos e rudes.  Isso significa sair do assunto da discussão (porque ali o jogo está perdido) e atacar de alguma maneira aquele com o qual se disputa é a última esperança. Isso pode ser chamado de argumentum ad personam em oposição ao argumentum ad hominem, que se afasta do assunto completamente objetivo para se ater ao que o oponente tenha dito ou admitido em relação ao assunto. Mas ao ir para o lado pessoal, abandona-se o assunto completamente e os ataques são direcionados à pessoa do oponente: a pessoa então será sujeita a humilhações, maldades, afrontas e grosseiras. É um apelo da força da mente sobre as virtudes do corpo, ou sobre a animalidade.

Esse truque é muito apreciado, pois pode e costuma ser usado por qualquer um. Agora a questão é: quais os truques disponíveis para o oponente? Se ele usar os mesmos, isso se tornará uma luta, um duelo ou processo de injúria. Estaríamos muito enganados em achar suficiente simplesmente não ir para o lado pessoal. Pois ao mostrar a alguém que ele está errado e, portanto, julga e pensa de maneira errada, o que é o caso em qualquer disputa dialética, você o enerva mais do que se usar alguma expressão rude ou um insulto. Nada supera a satisfação da própria vaidade e nenhum machucado dói mais do que o ataque a ela. (Daí surgem ditados como “a honra vale mais do que a vida” e assim por diante.) Essa satisfação da vaidade consiste principalmente na comparação de si com o outro, em relação a qualquer coisa, mas principalmente em relação às forças intelectuais. Isso acontece de maneira efetiva e muito intensa nas disputas. Daí a exasperação do derrotado, sem que lhe inflijam injustiças, e por isso ele se apega aos últimos meios, a esta última estratégia, do qual não se pode escapar por meio da simples gentileza da nossa parte. Ter muito sangue frio pode ajudar a qualquer um. Neste caso, assim que o oponente for para o lado pessoal, responda com tranquilidade “isso não tem a ver com o assunto”, e imediatamente colocar a conversa nos trilhos novamente, e continuar para provar que ele está errado, sem dar atenção aos seus insultos — assim como Temístocles diz para Euribíades: παταξον μεν, ακουσον δε [bata em mim, mas me ouça]. Não é todo mundo que consegue fazer isso.

Por isso, a única regra contrária segura é aquela que Aristóteles já deu no último capítulo dos Tópicos: não discuta com o primeiro que aparecer, mas só com os conhecidos que sabemos que têm conhecimento suficiente para não dizer coisas absurdas que os envergonhariam; disputar com argumentos e não com afirmações de força e, finalmente, valorizar a verdade, ouvir bons argumentos com prazer, mesmo os saídos da boca do oponente, e ter integridade suficiente para poder suportar não estar com a razão quando a verdade estiver do outro lado. Por isso, dentre centenas de pessoas raramente existe mais que uma com quem valha a pena discutir. Deixe o restante falar o que quiser, pois desipere est juris gentium [a ignorância é um direito do ser humano]; e pensemos no que disse Voltaire: La paix vaut encore mieux que la vérité [A paz ainda é melhor do que a verdade]; e um ditado árabe: “Na árvore do silêncio crescem os frutos da paz”.

No entanto, a discussão como atrito entre mentes muitas vezes é necessária para os dois lados, para a correção dos próprios pensamentos e para a produção de novos pontos de vista. Mas as duas partes devem ter formação e inteligência bastante equivalentes. Se um não tiver o primeiro, ele não entende nada, não está no mesmo nível. Se lhe faltar o segundo, a exacerbação resultante o levará à desonestidade e à astúcia, ou à grosseria.

Referências Bibliográficas:

PAZ, Sabrina. Técnicas de Argumentação. Disponível em:<https://slideplayer.com.br/slide/2705719/>. Acesso em: 30 jan. 2024.

SCHOPENHAUER, A. A arte de argumentar: como vencer qualquer debate sem precisar ter razão. São Paulo: Faro Editorial, 2022.

A dialética erística schopenhaueriana (Parte 1)

Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão, analisou sobre o domínio da dialética erística (já presente na antiguidade grega) e postulou sua própria concepção sobre a temática. Segundo sua tese, a dialética se aplica em uma discussão onde, o fim, não é obter uma verdade objetiva ou apenas convencer o oponente com afirmações falsas, mas conquistar o poder/ vencer uma discussão “sem ter razão”. Exatamente isso, o objetivo do debate/discussão é dominar/ vencer o oponente, seja através de afirmações verídicas ou falsas ou ainda utilizar-se de subterfúgios, truques e falácias. Em outras palavras, a dialética erística, independente da verdade objetiva, é a arte de ter razão.

Na introdução da obra “A arte de argumentar: como vencer qualquer debate sem precisar ter razão” (2022), Karl Otto Erdmann afirma que, frequentemente, “ter razão e ficar com a razão não são equivalentes”, e que “o vencedor de uma discussão não é o que está do lado da verdade e da razão, mas sim o que é espirituoso e sabe lutar de maneira mais ágil” (1). Logo, a argumentação envolve elementos como a persuasão emotiva, espirituosidade e ironia do orador, aparência convincente e representação de um papel autoritário. Tais fatores conseguem sobrepor-se à própria perspicácia e o conhecimento humano.

A pessoa que compreende o princípio dos “sofismas” e as estratégias envoltas nos casos mais “complexos” será admirada, pois consegue perceber as falácias usadas a todo momento e não são fáceis de se identificar no dia a dia. O ensino de “falácias” esteve presente com frequência nos livros de lógica até o século XIX. Alguns intelectuais ainda utilizam de vários termos escolásticos caíram em desuso, como petitio principii, ignoratio elenchi, ou ainda, post hoc e ergo proprter hoc. Outros conceitos foram esquecidos ou substituídos por termos comuns e modernos. Os antigos lógicos chamariam de uma “fallacia um dicto secundum quid ad dictum simpliciter” quando alguém corrobora uma afirmação válida apenas sob certas condições, por exemplo, de que o vinho é deletério (danoso) por causa dos efeitos nocivos do consumo sem moderação. Já hoje se diria apenas que [quando alguém corrobora uma afirmação válida apenas sob certas condições] se trata “uma generalização não confiável” ou uma “confusão entre precisão relativa e absoluta”.

Julius Frauenstädt (1813–79), apologeta schopenhaueriano, entende a erística enquanto uma doutrina do debate. A erística, para o autor, contém a “base da dialética”, e parte de “estratagemas” e afirmações e refutações lógicas. A “erística contém alguns truques que são apenas retórica e nada têm a ver com a ilusão dialética” (2).

Conforme já pontuado anteriormente, o orador, durante a discussão, pode utilizar-se de truques, falácias e subterfúgios para vencer o oponente. Tais artifícios são empregados visto que a maioria dos sofismas/falácias “exploram as imperfeições naturais e inevitáveis da inteligência e da transferência de conhecimento humanas” (3). Observação: quase todas as falácias surgem a partir da ligação de dois ou mais truques. Elas tratam dos seguintes fenômenos:

  1. Inadequação da linguagem do ponto de vista lógico. Goethe diz: “Assim que fala, a pessoa já começa a divagar”.
  2. Conflito entre o universal e o particular: os perigos da generalização, esquematização e tipificação; as contradições e as imperfeições da indução;
  3. O fato de que que nossas principais convicções baseiam-se em valores e, portanto, estão ligadas à ideia de certo e errado;
  4. O fenômeno inevitável de que cada experiência própria se dá ao mesmo tempo que a dos outros, e de que ninguém pode prescindir das autoridades;
  5. A tendência erradicável de todas as pessoas ao pensamento absoluto, enquanto nossos valores, conceitos e conhecimentos são relativos.

Schopenhauer ressalta que a dialética erística é a arte de discutir, e, mais especificamente, de “discutir de modo a ter razão”, isto é, per fas et nefas, ou seja, por meios lícitos ou ilícitos; o sujeito não luta pela verdade, mas pelas próprias afirmações e age pro ara et focis [por interesse pessoal]. Nesse ínterim, é possível ter razão objetiva em relação à determinado assunto, e, ainda assim, sob a ótica dos observadores, e, às vezes aos próprios, não ter razão. Por exemplo, quando o oponente recusa minhas evidências, “isso serve como refutação da afirmação em si, para a qual é possível dar outras evidências”; nesse caso, o oponente tem a razão, sem tê-la de maneira objetiva. “Assim, a verdade objetiva de uma argumentação e sua aceitação pelo oponente e pelo ouvinte são coisas diferentes” (4).

Por fim, o filósofo aponta que a lógica, por si só, visa obter a verdade objetiva; a sofística emprega apenas afirmações falsas e a dialética erística consiste em ter a razão. Em suas palavras, a dialética científica tem como tarefa principal “levantar e analisar estratégias desonestas na disputa: com isso pode-se, por meio do debate verdadeiro, tanto reconhece-las como negá-las. Com isso ela deve ter como objetivo final e confesso apenas ter razão e ter a verdade objetiva” (5).

Na próxima postagem, redigirei a Parte 2 comentando quais são as 38 estratégias da dialética erística e apresentarei comentários que o autor traz sobre cada uma delas. Wait.

Referências Bibliográficas:

SCHOPENHAUER, A. A arte de argumentar: como vencer qualquer debate sem precisar ter razão. São Paulo: Faro Editorial, 2022.

1 – (ERDMANN apud SCHOPENHAUER, 2002: 8);

2 – (Idem: 11);

3 – (Idem: 13);

4 – (SCHOPENHAUER, 2022: 17-19).

5 – (Idem: 26).

As variáveis por trás de uma decisão: sugestão de pesquisa

Diariamente, nós (ou o nosso cérebro?) tomamos milhares de decisões[1]. Por trás de cada decisão, existem fatores que moldam a maneira como pensamos e agimos[2]. Perante os fatos, vários questionamentos me vêm à mente:  Será que tomo minhas decisões livremente? Ou minhas decisões podem estar sendo influenciadas (por pressões externas, grupo social, família, cultura em que estou inserido etc)? Se o cérebro pré-condiciona respostas, existe o livre-arbítrio? Meu cérebro, eu interno/ enquanto corpo (atividade intra-cerebral) decide por mim ou existe uma consciência/mente (externa) que realiza as decisões?[3] Será que meu sistema neurofisiológico está saudável para realizar decisões[4]? O que me leva a pensar do modo como penso? Será que faço escolhas corretamente? Quão limitada é a racionalidade humana (limitações cognitivas, situacionais e informacionais)? Nossa! São poucas as perguntas, mas complexas de serem respondidas.

Após realizar uma pesquisa prévia, encontrei múltiplos componentes, dialogáveis com áreas da Psicologia, Filosofia, Psicopedagogia, Neurociência, Neuroeconomia, Direito, e até mesmo da Administração, Matemática e Economia, que estão implícitos em um processo decisório. Pensei em abordar cada campo, porém deixarei as fontes na bibliografia para que os leitores explorem a temática.

Em síntese, os domínios que circundam uma tomada de decisão são:

- Liberdade (limitada) de escolha[5]: É racional (consciente) ou automática (inconsciente)[6]? Ocorre em situações esperadas ou inesperadas? Existem pressões externas (psicológicas, ambientais[7] ou sociais[8]) que exigem respostas rápidas ou são decisões que podem ser tomadas com maior amplitude de tempo?

- Peso e risco das escolhas[9]: A escolha é reversível ou irreversível? Quais os riscos envolvidos (são certos ou incertos)?[10]

- Aspectos biológicos (físicos): atividade cerebral neuroquímica, neuroprogramática e neurofisiologia comportamental[11] perante uma escolha; heranças (ancestrais) genéticas e epigenéticas[12].

- Psicológicos (aspectos conscientes e subconscientes): personalidade (em constante construção)[13], memórias, emoções, pensamentos, interesses, aptidões, vontades, valores, crenças (permeada por armadilhas de pensamento ou vieses cognitivos e heurísticas[14]), informações/ conhecimentos específicos.

- Influências socioculturais, políticas e econômicas, educacionais, familiares (com ou sem inversões de papéis)[15], éticas, morais, religiosas, em um dado período de tempo.

- Parapsicológicas e Espirituais: Podem existir direções intuitivas, “visões”[16], pressentimentos, aparições, e outras influências “metafísicas”[17].

Não quero aqui reduzir o debate a meras especulações, mas, conforme pontuei no título da postagem, pretendo deixar uma sugestão de pesquisa sobre a amplitude de fatores que envolvem uma decisão.

[1] https://exame.com/bussola/voce-sabe-tomar-decisoes-responda-agora-sim-ou-nao/#:~:text=De%20acordo%20com%20a%20ci%C3%AAncia,m%C3%A9dia%2035%20mil%20pequenas%20decis%C3%B5es.

[2] Criatividade: Perfeccionismo no trabalho (gcfglobal.org).

[3] Existe um debate acalorado no seio da Filosofia da Mente sobre o assunto (problema mente x corpo): 220207830.pdf (editoracientifica.com.br); Vista do As teorias não reducionistas da consciência (pucsp.br); Também indico a obra: Teorias da Mente PDF Adalberto Tripicchio, Ana Cecilia Tripicchio (indicalivros.com).

[4] A Neurociência da Tomada de Decisão: Como o Seu Cérebro Faz Escolhas (linkedin.com).

[5] Nossa liberdade e nossas escolhas - Consciência Psicologia (conscienciapsicologia.com.br); O que está por trás das escolhas? Qual o impacto das escolhas na nossa vida? | Pessoa Melhor; Felicidade e Liberdade: uma relação entre escolhas e responsabilidades (linkedin.com).

[6] Tomamos milhares de decisões todos os dias. Por que deveríamos saber mais sobre a psicologia por trás da tomada de decisões? - Leader Decision.

[7] O ambiente pode gerar pressões coercitivas, normativas e miméticas. Cf. Julgamento e tomada de decisão dos contadores no processo de controle do ativo imobilizado (jesuita.org.br).

[8] Pressão social: o que é e como superá-la (psicologia-online.com).

[9] Na Psicologia é feita uma distinção entre escolha e decisão. Porém, na postagem, aproximei os dois conceitos para não gerar mais dúvidas! Mas se quiser conhecer, cf. Decisão e escolha :: Érika Renata (webnode.page).

[10] Vista do TOMADA DE DECISÃO E RISCO: A CONTRIBUIÇÃO DOS MATEMÁTICOS E ESTATÍSTICOS (ufrgs.br); Conheça quais são os 5 principais tipos de tomada de decisão (ginast.com.br).

[11] Emocoes.pdf (ufmg.br); Incluindo dados fisiológicos na ciência do comportamento: uma análise crítica (bvsalud.org).

[12] Como os genes influenciam nos transtornos mentais? - Instituto de Psiquiatria do Paraná (institutodepsiquiatriapr.com.br); Epigenética: relação entre estilo de vida, meio ambiente e desenvolvimento | Newslab; A capacidade da epigenética em comprovar que as "crueldades humanas do passado" possam afetar a condição fisiológica do presente, ainda é um terreno de debates. cf. Pais podem transmitir traumas aos filhos pelos genes, creem cientistas - BBC News Brasil; É possível herdar traumas de nossos pais? - BBC News Brasil.

[13] “Dentro de uma psicologia existencialista partimos do pressuposto que o ser humano primeiro existe no mundo, quer dizer nasce em uma determinada sociedade, cultura e período histórico, e a partir desses contatos com realidades humanas vai se definindo enquanto ser, vai se elegendo através de negações e aprovações diante do que as vivencias vão lhe trazendo, ou seja, como ele vive na pele cada situação do seu cotidiano, se algo lhe dói, lhe causa alegria ou coloca em situação de sentir-se inferior”. Cf. Liberdade e escolhas (psicologiaviva.com.br).

[14] Viés cognitivo é a tendência dos seres humanos em pensar de uma certa maneira sem perceber, que pode levar a erros sistemáticos de julgamento na tomada de decisões. Cf. processo decisório – Blog do Nei (neigrando.com); Vista do As heurísticas e vieses da decisão judicial: análise econômico-comportamental do direito (fgv.br); Viés cognitivo – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org); Lista de vieses cognitivos – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org); Viés cognitivo, o que é? Quais são os 25 principais e como evitá-los (r7.com); Armadilhas emocionais comuns em processo decisório - LCM Treinamento.

[15] Inversões de papéis na família pode ser um risco - Toda On.

[16] "Deus pode dar visões para as pessoas hoje em dia? Sim! Deus dá visões para as pessoas hoje em dia? Possivelmente. Devemos esperar que visões sejam um ocorrência comum? Não. Como está registrado na Bíblia, Deus falou para as pessoas diversas vezes utilizando-se de visões. Exemplos seriam José, filho de Jacó, José, marido de Maria, Salomão, Isaías, Ezequiel, Daniel, Pedro, Paulo e vários outros". Cf. Deus ainda dá visões para as pessoas? Os crentes devem esperar que visões façam parte da sua experiência cristã? | GotQuestions.org/Portugues; Visão (Visões) — Estudos Bíblicos - Estudos e Comentários Bíblicos (bibliotecabiblica.blogspot.com)

[17] "Não precisamos ser reféns do subconsciente", dizem parapsicólogos — Portal da Câmara Municipal de Curitiba; Sobre o tema, indico também a obra: Antes que os demônios voltem: explicação dos fenômenos e análise das teorias ... - Oscar González-Quevedo - Google Livros.

Link da imagem: <https://conteudo.imguol.com.br/blogs/218/files/2019/06/iStock-994777970.jpg>. Acesso em: 13 jan. 2025.

Todos os links foram acessados em 15 set. 2023.

Avareza: quando o homem é escravo de seus bens

O homem pode tornar-se refém de si mesmo? Sim. A avaria prende, sufoca, amortiza o ser que busca acumular tudo para si, temendo faltar no futuro. O avarento, além de privar-se de gastar o próprio dinheiro, economiza também afetos, sentimentos e emoções. O termo a avareza, do latim, avaritia, significa apego excessivo ou sórdido ao dinheiro para o acumular. Sovinice.

Ainda na Antiguidade, o filósofo grego Plutarco (46 d.C - 120 d.C.) afirmava que "A avareza é um tirano bem cruel; manda ajuntar e proíbe o uso daquilo que se junta; visita o desejo e interdiz o gozo". Já Epicuro (341 a.C. - 270 a.C.) compreendia que "Não é o que temos, mas o que desfrutamos que constitui a nossa abundância".

O historiador José Alves F. Neto chama a atenção que, na tradição judaico-cristã, a avareza foi considerada um dos sete pecados capitais por sua desconfiança em relação à vontade divina (descrença na providência divina), ser contrária à prática da caridade e substituir o amor à Deus pelo amor "às coisas". Das várias passagens bíblicas que corroboram essa perspectiva, destacam-se:

  • "Quem ama o dinheiro nunca terá o suficiente. Quem ama a riqueza nunca se satisfará com o que ganha. Não faz sentido viver desse modo!" (Eclesiastes 5:10, NVT).

  • Em Marcos 8:36, NVI, Jesus questiona "De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?". Mais adiante, afirma: "Acautelai-vos e guardai-vos da avareza, porque a vida de cada um não consiste na abundância das coisas que possui" (Lucas, 12:15, JFA).

Ainda sob a perspectiva cristã, Santo Tomás de Aquino (1225-1274) entende que a avareza está ligada à traição, mentira, fraude, perjúrio, inquietude, violência, "dureza de coração" e a incapacidade de ver felicidade e em compartilhar.

Historicamente, a avareza foi tratada sob diferentes perspectivas (antiguidade; medievo: a riqueza era limitada, "poupar é assegurar-se"; era moderna, riqueza ilimitada, "poupar para enriquecer"; e contemporânea, riqueza inatingível, "produz desejos imaginários"). Também foi repensada por variadas cosmovisões religiosas e intelectuais de diferentes épocas.

Em resumo, pode-se dizer que não que há virtude alguma na avaria, que escraviza o ser, entorpece-o, tanto em aspectos físicos, quanto metafísicos, e torna-o alguém temeroso, insaciável e relutante à ótica judaico-cristã.

Referências:

NETO, José A. F. Quando o muito é pouco: a avareza. Café Filosófico CPFL. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=dXUNHdLxIdQ>. Acesso em: 31/08/2023.

Link da capa, disponível em: <https://encenasaudemental.com/wp-content/uploads/2013/05/capa-avareza.jpg>. Acesso em: 31/08/2023.

7 soluções para expandir seu dinheiro, dicas de Arkad

"As riquezas da Babilônia foram o resultado da sabedoria de seu povo. Os habitantes primeiro tiveram que aprender a se tornar prósperos". (CLASON, 2022: 38). George Clason assim inicia mais um capítulo de sua (fantástica) obra.

Clason narra que, após retornar de uma batalha vitoriosa sobre os elamitas, o rei Sargon encontrou o seio do império babilônico acabrunhado por uma crise socioeconômica. Nesse ínterim, Sargon convocou Arkad, o homem mais rico de toda Babilônia, e solicitou que ele transmitisse seus conhecimentos sobre os meios de obter riqueza, a um grupo seleto de homens.

"Pedagogicamente", Arkad traçou um paralelo entre cada um dos dias da semana à uma lição, visando obter os "remédios" possíveis para a cura da falta de dinheiro. São elas:

I. Comece a fazer seu dinheiro crescer.
"Em cada 10 moedas conseguidas de qualquer fonte, não gaste mais do que nove".

II. Controle seus gastos
“Façam um orçamento de suas despesas de modo que possam ter dinheiro para pagar pelo que é necessário e para satisfazer seus mais valiosos desejos sem despender mais do que nove décimos de seus ganhos".

III. Multiplique seus rendimentos
“Pôr cada moeda para trabalhar de modo que possa reproduzir-se e trazer-lhes lucro, um rio de riqueza fluindo constantemente para dentro de suas bolsas".

"A riqueza de um homem não deve ser aquilatada pelas moedas que ele consegue juntar, ela se acha, sim, nos lucros que essa soma pode produzir, a torrente de outro que flui para dentro de suas bolsas; é o que todo homem deseja: uma renda que não cesse de crescer, estejam vocês trabalhando ou viajando".

IV. Proteja seu tesouro contra a perda
“Protejam seus tesouros contra a perda, investindo onde o principal esteja a salvo, onde possa ser reivindicado sempre que o desejarem e onde fique claro para vocês que vão realmente conseguir uma bela renda".

Em outras palavras, invista em um rendimento com ganhos seguros. Consulte homens experimentados nos negócios.

V. Façam do lar um investimento produtivo

VI. Assegure uma renda para o futuro
“Seja previdente quanto às necessidades de sua velhice e quanto à proteção de sua família".

VII. Aumente sua capacidade para ganhar
“Cultivar suas próprias aptidões, estudar e somar conhecimentos, tornar-se mais habilidoso e agir sempre respeitando a si mesmo".

O desejo é a condição para a realização. Os desejos devem ser fortes e definidos. "Quanto mais conhecimentos adquirimos, mais poderemos ganhar. O homem que buscar aprender sempre mais sobre sua profissão, será ricamente recompensado". Por exemplo, o vendedor deve pesquisar continuamente boas mercadorias passíveis de serem vendidas a preços mais baixos.

Bibliografia:

CLASON, George S. O Homem Mais Rico da Babilônia. 1 ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2022, p. 37-56.

As cinco leis do ouro, de George Clason

Na obra, “O Homem Mais Rico da Babilônia", George S. Clason narra a história de Arkad, o homem mais rico da antiga Babilônia. Nomasir, filho do grande comerciante, elenca cinco leis do ouro imprescindíveis para qualquer indivíduo que deseja ser um bom administrador financeiro.

1. O ouro vem de bom grado e numa quantidade crescente para todo homem que separa não menos de um décimo de seus ganhos, a fim de criar um fundo para o seu futuro e o de sua própria família.
2. O ouro trabalha diligente e satisfatoriamente para o homem prudente que, possuindo-o, encontra para ele um emprego lucrativo, multiplicando-o como os flocos de algodão no campo.
3. O ouro busca a proteção do proprietário cauteloso que o investe de acordo com os conselhos de homens mais experimentados em seu manuseio.
4. O ouro foge do homem que o emprega em negócios ou propósitos com que não está familiarizado ou que não contam com a aprovação daqueles que sabem poupá-lo.
5 . O ouro escapa ao homem que o força a ganhos impossíveis ou que dá ouvidos aos conselhos enganosos de trapaceiros e fraudadores ou que confia em sua própria inexperiência e desejos românticos na hora de investi-lo.

Eis compiladas as cinco leis do ouro (em plena Antiguidade). Resta-nos meditar e aplicá-las em nossos empreendimentos econômicos.

Bibliografia:
CLASON, George S. O Homem Mais Rico da Babilônia. 1 ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2022. 157 p.