Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão, analisou sobre o domínio da dialética erística (já presente na antiguidade grega) e postulou sua própria concepção sobre a temática. Segundo sua tese, a dialética se aplica em uma discussão onde, o fim, não é obter uma verdade objetiva ou apenas convencer o oponente com afirmações falsas, mas conquistar o poder/ vencer uma discussão “sem ter razão”. Exatamente isso, o objetivo do debate/discussão é dominar/ vencer o oponente, seja através de afirmações verídicas ou falsas ou ainda utilizar-se de subterfúgios, truques e falácias. Em outras palavras, a dialética erística, independente da verdade objetiva, é a arte de ter razão.
Na introdução da obra “A arte de argumentar: como vencer qualquer debate sem precisar ter razão” (2022), Karl Otto Erdmann afirma que, frequentemente, “ter razão e ficar com a razão não são equivalentes”, e que “o vencedor de uma discussão não é o que está do lado da verdade e da razão, mas sim o que é espirituoso e sabe lutar de maneira mais ágil” (1). Logo, a argumentação envolve elementos como a persuasão emotiva, espirituosidade e ironia do orador, aparência convincente e representação de um papel autoritário. Tais fatores conseguem sobrepor-se à própria perspicácia e o conhecimento humano.
A pessoa que compreende o princípio dos “sofismas” e as estratégias envoltas nos casos mais “complexos” será admirada, pois consegue perceber as falácias usadas a todo momento e não são fáceis de se identificar no dia a dia. O ensino de “falácias” esteve presente com frequência nos livros de lógica até o século XIX. Alguns intelectuais ainda utilizam de vários termos escolásticos caíram em desuso, como petitio principii, ignoratio elenchi, ou ainda, post hoc e ergo proprter hoc. Outros conceitos foram esquecidos ou substituídos por termos comuns e modernos. Os antigos lógicos chamariam de uma “fallacia um dicto secundum quid ad dictum simpliciter” quando alguém corrobora uma afirmação válida apenas sob certas condições, por exemplo, de que o vinho é deletério (danoso) por causa dos efeitos nocivos do consumo sem moderação. Já hoje se diria apenas que [quando alguém corrobora uma afirmação válida apenas sob certas condições] se trata “uma generalização não confiável” ou uma “confusão entre precisão relativa e absoluta”.
Julius Frauenstädt (1813–79), apologeta schopenhaueriano, entende a erística enquanto uma doutrina do debate. A erística, para o autor, contém a “base da dialética”, e parte de “estratagemas” e afirmações e refutações lógicas. A “erística contém alguns truques que são apenas retórica e nada têm a ver com a ilusão dialética” (2).
Conforme já pontuado anteriormente, o orador, durante a discussão, pode utilizar-se de truques, falácias e subterfúgios para vencer o oponente. Tais artifícios são empregados visto que a maioria dos sofismas/falácias “exploram as imperfeições naturais e inevitáveis da inteligência e da transferência de conhecimento humanas” (3). Observação: quase todas as falácias surgem a partir da ligação de dois ou mais truques. Elas tratam dos seguintes fenômenos:
- Inadequação da linguagem do ponto de vista lógico. Goethe diz: “Assim que fala, a pessoa já começa a divagar”.
- Conflito entre o universal e o particular: os perigos da generalização, esquematização e tipificação; as contradições e as imperfeições da indução;
- O fato de que que nossas principais convicções baseiam-se em valores e, portanto, estão ligadas à ideia de certo e errado;
- O fenômeno inevitável de que cada experiência própria se dá ao mesmo tempo que a dos outros, e de que ninguém pode prescindir das autoridades;
- A tendência erradicável de todas as pessoas ao pensamento absoluto, enquanto nossos valores, conceitos e conhecimentos são relativos.
Schopenhauer ressalta que a dialética erística é a arte de discutir, e, mais especificamente, de “discutir de modo a ter razão”, isto é, per fas et nefas, ou seja, por meios lícitos ou ilícitos; o sujeito não luta pela verdade, mas pelas próprias afirmações e age pro ara et focis [por interesse pessoal]. Nesse ínterim, é possível ter razão objetiva em relação à determinado assunto, e, ainda assim, sob a ótica dos observadores, e, às vezes aos próprios, não ter razão. Por exemplo, quando o oponente recusa minhas evidências, “isso serve como refutação da afirmação em si, para a qual é possível dar outras evidências”; nesse caso, o oponente tem a razão, sem tê-la de maneira objetiva. “Assim, a verdade objetiva de uma argumentação e sua aceitação pelo oponente e pelo ouvinte são coisas diferentes” (4).
Por fim, o filósofo aponta que a lógica, por si só, visa obter a verdade objetiva; a sofística emprega apenas afirmações falsas e a dialética erística consiste em ter a razão. Em suas palavras, a dialética científica tem como tarefa principal “levantar e analisar estratégias desonestas na disputa: com isso pode-se, por meio do debate verdadeiro, tanto reconhece-las como negá-las. Com isso ela deve ter como objetivo final e confesso apenas ter razão e ter a verdade objetiva” (5).
Na próxima postagem, redigirei a Parte 2 comentando quais são as 38 estratégias da dialética erística e apresentarei comentários que o autor traz sobre cada uma delas. Wait.
Referências Bibliográficas:
SCHOPENHAUER, A. A arte de argumentar: como vencer qualquer debate sem precisar ter razão. São Paulo: Faro Editorial, 2022.
1 – (ERDMANN apud SCHOPENHAUER, 2002: 8);
2 – (Idem: 11);
3 – (Idem: 13);
4 – (SCHOPENHAUER, 2022: 17-19).
5 – (Idem: 26).

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