sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

A (eterna) incompletude do ser

O ser humano é, naturalmente, incompleto. Na concepção cristã, existem quatro conjunturas que respaldam essa afirmação. A primeira trata-se da gênese, na qual Deus (יהוה ou YHWH) cria uma companheira para Adão, para que ele não ficasse só. “E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora que esteja como diante dele” (1). A segunda encontra-se no livro de Provérbios que pontua “O Sheol e a Destruição são insaciáveis, como insaciáveis são os olhos do homem” (2). A terceira está redigida no livro de Eclesiastes, na qual afirma-se que: "Quem amar o dinheiro jamais dele se fartará; e quem amar a abundância nunca se fartará da renda; também isto é vaidade" (3); e ainda, “Todo trabalho do homem é para a sua boca; e, contudo, nunca se satisfaz o seu apetite” (4).

A primeira passagem remete a alguns aspectos não preenchidos da existência adâmica, ou seja, a solidão humana (observação: não vou entrar no debate de que Adão sentia-se deprimido ou infeliz, mas de que o próprio Deus acreditava que o homem seria mais “feliz” se houvesse alguém para desfrutar e compartilhar a vida no “paraíso”) e a ausência de autonomia (no sentido de dependência da mulher e do próprio YHWH). A segunda, terceira e quarta passagem remetem à dois sinônimos de incompletude: insaciabilidade e constante insatisfação (ou ânsia de poder, riqueza, conhecimento etc). Na concepção do autor, a busca incessante por riqueza e conforto material seriam fúteis, visto que não permitem alcançar a felicidade plena.

Paralelamente, no campo da literatura, encontramos um sujeito icônico do imaginário alemão: Fausto, ou Dr. Fausto, que exprime uma profunda insatisfação concernente ao seu conhecimento adquirido, que, consequentemente, o faz desejar obter mais “sabedoria” ao ponto de fazer um pacto de sangue com Mefístoles, um demônio, que promete saciar seus desejos, em troca de servidão.

                            Faust et Méphistophélès, peinture d'Eugène Delacroix, 1897-8 (5).

Pedro Tavares, psicanalista e literato-germanista, traça um paralelo da insatisfação faustiana com a melancolia do personagem e apresenta a definição de Marie-Claude Labombotte sobre a condição melancólica:

La compulsion à percevoir des ensembles logiques qui s'évanouissent sitôt formés, l'impossibilité de mettre un terme à cette ratiocination intellectuelle qui renforce la sensation d'épuisement, le sentiment de détenir plus que les autres les éléments d'une vérité qui, cependent, s'éclipsent quand on croit les saisir, tout ceci contribue à qualifier la situation du sujet mélancolique de situation exceptionnelle, marquée par la répetition et la fatalité (6).

A compulsão para perceber totalidades lógicas que se esvaecem tão logo são formados, a impossibilidade de pôr a termo uma racionalização intelectual que reforça a sensação de esgotamento, o sentimento de deter mais que os outros os elementos de uma verdade que, no entanto, se oculta quando se crê agarrá-la, tudo isto contribui para qualificar a situação do sujeito melancólico de uma situação de exceção, marcada pela repetição e pela fatalidade.

Dialogando com o campo da Psicologia, Sigmund Freud e Jacques Lacan entendem que os seres humanos são insuficientes.

“Durante a fase fálica, diante de seus complexos Edipianos, o sujeito vê-se diante de sua incompletude. E ao longo das experiências e abstrações, ao amadurecer, temos a sensação de que não somos completos. Somos seres faltosos, nossa relação com o mundo é marcada pela existência da falta. Somos marcados pela insuficiência. Não somos sujeitos plenos” (7).

Em resumo, para ambos autores, " não é possível obter satisfação plena e isso é inerente à condição de existir" (8).

Finalizando a pequena, mas estimulante reflexão, trago a máxima do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, “Das Leben schwingt, gleich einem Pendel, hin und her, zwischen dem Schmerz und der Langeweile (9)”. ("A vida oscila para frente e para trás, como um pêndulo, entre a dor [ou o sofrimento] e o tédio."). André Conte-Sponville esclarece: “sofrimento porque desejo o que não tenho e sofro esta falta; tédio porque tenho o que, por conseguinte, já não desejo” (10).

Bibliografia e notas:

1 - (Bíblia Almeida Revista e Corrigida, 2009, Gênesis 2:18).

2 - (Bíblia Nova Versão Internacional, Provérbios 27:20).

3 - (Bíblia Almeida Corrigida Fiel, Eclesiastes 5:10).

4 - (Bíblia Almeida Revista e Atualizada, Eclesiastes 6:7).

5 - Faust et Méphistophélès, peinture d'Eugène Delacroix, 1897-8. The Wallace Collection. Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/61/Delacroix_-_Faust_and_Mephistopheles%2C_1827-8.jpg>. Acesso em: 01 fev. 2024.

6 - Lambotte, 2003, p.63 apud TAVARES, Pedro Heliodoro de Moraes Branco. Fausto como paradigma da melancolia. Rev. Mal-Estar Subj., Fortaleza, v. 9, n. 2, p. 459-486, jun.  2009.   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518-61482009000200005&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 01 fev. 2024.

7 – BAZANTE, Renata. Incompletude humana segundo as religiões e a psicanálise. Psicanálise Clínica. Disponível em:<https://www.psicanaliseclinica.com/incompletude-humana/>. Acesso em: 01 fev. 2024.

8 – Idem.

9 - SCHOPENHAUER, A. Die Kunst zu beleidigen. München, Germany: C. H. Beck oHG, 2002: 77.

10 - LIMA, Daniel, 2002 apud COMTE-SPOINVILLE, A. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. Disponível em: <https://www.geak.com.br/site/upload/midia/pdf/imortalidade_e_a_espera_pela_felicidade_-_final.pdf#:~:text=Esta%20viv%C3%AAncia%2C%20e%20a%20felicidade%20que%20dela%20decorre%2C,seja%20na%20terra%20ou%20mesmo%20na%20outra%20vida14.>. Acesso em: 01 fev. 2024.

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