terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Diferentes perspectivas

Uma das pinturas mais impressionantes e marcantes que já vi (pessoalmente, na The National Gallery, London) foi “Os Embaixadores”, de Hans Holbein, o Jovem, concluída em 1533. Além da técnica naturalista de Holbein, do realismo de vários objetos e mistérios que compõe a pintura, um elemento capta a atenção do espectador: o desenho de um crânio distorcido. O fenômeno anamorfo pode ser percebido quando se olha de um determinado ponto à direita da tela, ou mesmo de frente: a figura ganha uma outra perspectiva (1).

A seguir, temos a pintura original:

Hans Holbein the Younger, The Ambassadors, 1533, oil on oak, 207 x 209.5 cm (The National Gallery, London) (2) .

Com o auxílio da tecnologia é possível vislumbrar uma nova perspectiva:



Quando observada de um ângulo superior direito do quadro, a representação anamórfica revela a caveira (3).

É possível obter uma outra apreciação, a partir do uso de um tubo e de um copo de água:

Observação: com o uso desses recursos, a tela deve ser vista de frente (4)

Existem várias análises acerca do significado do crânio retratado: “para alguns, o crânio enfatiza a transitoriedade da vida, especialmente da vaidade e da riqueza lembrando que a morte iguala a todos, sejam ricos ou pobres, poderosos ou humildes. Outros afirmam se tratar de uma espécie de assinatura do pintor, pois Holbein, em alemão significa ‘osso oco’”. (5)

Diante do exposto, pode-se notar que a arte nos proporciona observar telas, esculturas e outras expressões humanas, sob inúmeras perspectivas. E por que não refletir acerca da própria vida? Quero enfatizar aqui que, assim como na arte, (tudo) (n)a vida pode ser visto sob diferentes óticas.

Um exemplo que ampara a afirmação feita é a analogia do copo de água:

O copo está meio cheio ou meio vazio? (6)

Para algumas pessoas, o copo está meio cheio; para outras, está meio vazio. E como isso pode ser trazido para nossa realidade? Pois bem, os indivíduos que veem o “copo cheio” se trata de pessoas com boa autoestima, realizadas, motivadas. Já as que veem o “copo meio vazio” são pessimistas, insatisfeitas, desmotivadas. Há estudos que aprofundam essa reflexão, porém não é esse o meu objetivo. Quero ressaltar que há outra formas de interpretar uma teoria: por exemplo, definir se o copo está meio cheio ou meio vazio significa apenas uma afirmação lógica. “Nada mais”. Em outras palavras, a analogia do copo de água se trata, unicamente, de uma pensamento categórico, determinístico, que não abrange a dinâmica e as particularidades de um todo (7).

No campo filosófico, observando e analisando o cosmos / a physis (Natureza), Heráclito de Éfeso chegou à conclusão de que tudo está em movimento e constante transformação (teoria do fluxo). Atribui-se ao filósofo a famosa frase: “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários” (8). Já Parmênides, opondo-se a Heráclito, acreditava que não havia mudança, mas apenas uma aparência/ um efeito de movimento, ou ilusão dos sentidos. Para o outro filósofo, a lei que rege o universo é a permanência; o Ser é imóvel, não se transforma. Na conceituação parmenidiana o ón (a consistência) e a ausência de movimento (kinésis) negam a physis (9).

Partindo de referências da Arte, Psicologia e Filosofia, é possível concluir que existem diversas interpretações e pontos de vista sobre o cosmos, a natureza, a vida (eventos físicos, metafísicos); enfim, tudo pode ser observado por mais de um prisma (nível micro x macro, multiscopico/ plural…).


Bibliografia e referências:

(1) Há teorias que abordam sobre outras formas e ângulos de visualização. Cf.: SAMUEL, Edgar R. (outubro de 1963). "Death in the Glass - Uma nova visão dos 'Ambassadores' de Holbein". Revista Burlington, 105 (727). Burlington Magazine Publications Ltd: 436– 441 e CHEETAM, abril (maio de 2012). Um véu de identidade: anamorfose como dupla visão na prática da arte contemporânea (Tese de doutorado). Liverpool John Moores University . U594608.

(2) Hans Holbein the Younger, The Ambassadors, 1533, oil on oak, 207 x 209.5 cm (The National Gallery, London). Disponível em: <https://www.meisterdrucke.pt/impressoes-artisticas-sofisticadas/Hans-Holbein-der-J%C3%Bcngere/14/Os-embaixadores.html>. Acesso em: 28 jan. 2025.

(3) DOMINGUES, Joelza Ester. Os enigmas na pintura “Os embaixadores”, de Hans Holbein, o Jovem. Blog Ensinar História. 19 jan 2017. Disponível em: <https://ensinarhistoria.com.br/pintura-os-embaixadores-holbein/>. Acesso em: 19 jan. 2025.

(4) Imagem disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7d/Demonstration_of_Holbein%27s_skull_image_viewed_through_a_tube.jpg> e DOMINGUES, Joelza. Ibdem. Acesso em: 28 jan. 2025.

(5) DOMINGUES, Joelza. Ibdem.

(6) Imagem disponível em: <https://us.123rf.com/450wm/romanamrk/romanamrk2104/romanamrk210400036/168316206-um-copo-de-%C3%A1gua-meio-cheio-ou-meio-vazio-em-luz-dura-com-sombra-agrad%C3%A1vel-na-superf%C3%ADcie-azul.jpg?ver=6>. Acesso em: 28 jan. 2025.

(7) DELGADO, Jennifer. Não importa se o copo está meio cheio ou meio vazio, mas, se está se enchendo. In: Equipe Abrangente, Instituto Mineiro de Terapia Breve. Disponível em: <https://abrangente.psc.br/nao-importa-se-o-copo-esta-meio-cheio-ou-meio-vazio-mas-se-esta-se-enchendo/>. Acesso em: 28 jan. 2025. 

(8) BORNHEIM, Gerd. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Cultrix, 2000 apud QUATTRER, Gabriel. A recepção da filosofia de Heráclito pelo jovem Nietzsche. In: Classica, e-ISSN 2176-6436, v. 37, pp. 5, 2024. Disponível em: <https://doi.org/10.24277/classica.v37.2024.1098>. Acesso em: 28 jan. 2025.

(9) MARÍAS, Julián. Parmênides. In: Revista Internacional d’Humanitats, n. 56, set-dez 2022, CEMOrOc-Feusp / Univ. Autònoma de Barcelona, pp. 4.

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