1 - Como é a imagem da mulher conforme retratada nos poemas homéricos, em especial na Odisseia? Ela é tratada da mesma forma que em épocas posteriores?
Na cultura aristocrática grega a arete (virtude/ excelência) própria da mulher é a formosura. “O culto da beleza feminina corresponde ao tipo de formação cortesã de todas as idades cavalheirescas” (p. 46). A mulher, porém, não surge apenas como objeto do desejo erótico do homem, mas também na sua posição sociojurídica de dona de casa. “As suas virtudes são a este respeito, o sentido da modéstia e o desembaraço no governo do lar” (p. 46). Na Odisséia, por exemplo, Helena, ao voltar para Esparta, aparece como modelo de grande dama, de distinta elegância e soberana forma e representação social.
Nas épocas posteriores, a posição social da mulher nunca mais voltou ao patamar elevado como no período da cavalaria homérica. A cortesia com que os senhores tratavam mulheres, como Penélope, Nausícaa e Arete, origina-se de uma cultura antiga e de uma elevada educação social. A mulher é atendida e honrada não só como um ser útil, “mas acima de tudo e principalmente porque, numa raça orgulhosa de cavalheiros, a mulher pode ser mãe de uma geração ilustre. Ela é a mantenedora e a guardiã dos mais altos costumes e tradições” (p. 47).
A dignidade espiritual feminina influencia também o comportamento erótico do homem. Na Odisséia, Homero narra um aspecto da relação intersexual: a história de Euricléia, a velha serva de confiança da casa. Comprada pelo velho Laertes, quando era moça jovem e bela, a serva permaneceu em sua casa por toda a vida e recebeu honras tanto quanto a sua esposa, porém nunca compartilhou com ela o leito.
Frente ao modo imperioso como o homem procede no decurso da Ilíada, as ideias da Odisséia encontram-se em um plano mais elevado. A história de Ulisses e Nausícaa revelam a “mais profunda ternura e o íntimo refinamento dos sentimentos de um homem que o destino põe diante de uma mulher” (p. 48). A íntima e profunda “civilização grega” é produto do “influxo da mulher numa sociedade rudemente masculina, violenta e guerreira”. A partir da relação do herói com Palas Atena tem-se uma representação do poder espiritual da mulher como inspiradora, protetora e guia.
2 - De que maneira pode-se conceber a poesia homérica como “educativa”? Destaque alguns aspectos.
Homero deve ser considerado como o primeiro e maior criador e modelador da humanidade grega. O poeta é o representante da cultura grega primeva; apresentou na Ilíada o Pathos do destino heroico do homem lutador, e, na Odisséia, o ethos da cultura e da moral aristocrática.
A poesia grega desenvolveu gradualmente o seu espírito educador. Homero apresenta-nos várias descrições dos antigos aedos, de cuja tradição nasceu a épica. Tais cantores tinham o propósito de manter vivos na memória do mundo futuro os “feitos homens e dos deuses”. “A glória e a sua manutenção e o aumento constituem o sentido próprio dos cantos épicos”. (p. 67). Em síntese, a concepção helênica original parte da união necessária da poesia com o mito (o conhecimento das grandes ações do passado), e daí deriva a função social e educadora do poeta. “O simples fato de manter viva a glória através do canto é, por si só, uma ação educadora” (p. 67).
Os exemplos criados pelo mito, para a ética aristocrática de Homero, possuem valores educativos e significados normativos. “Os mitos e as lendas heroicas constituem um tesouro inesgotável de exemplos e modelos da nação, que neles bebe o seu pensamento, ideais e normas para a vida” (p. 68). Os aedos celebram a glória, o conhecimento do que é magnífico e nobre, ou seja, louva e exalta o que no mundo é digno de elogio e louvor. Nas descrições épicas existe um tom ponderativo enobrecedor e transfigurante, suprimindo, assim, “tudo que é baixo, desprezível e falho” (p. 69). A grande epopeia outorga aos poetas uma função educadora: ser um intérprete e criador da tradição. A originalidade da epopeia grega na composição de um todo unitário brota da mesma raiz que a sua ação educadora: da alta consciência espiritual dos problemas da vida.
A Ilíada possui uma eficácia educadora. A maior aristéia da guerra de Troia relata o triunfo de Aquiles sobre Heitor, além da tragédia da grandeza heroica votada a morte, que se mistura com a submissão do homem ao destino e às necessidades de sua própria ação. O seu heroísmo, ao elevar-se até a escolha deliberada de uma grande façanha, ao preço da própria vida, faz com que os gregos vejam nisto a grandeza moral e educativa do poema.
3 - Como se pode pensar a questão da justiça na poesia de Hesíodo? De que maneira sua poesia retrata os novos tempos, menos heroicos e mais prosaicos?
Em Hesíodo é introduzida a ideia de direito, que adquire uma elaboração poética em forma de epopeia. Na obra Erga kai Hēmerai (O Trabalho e os Dias), o poeta, a propósito da luta pelos próprios direitos, contra as usurpações de seu irmão (Perses) e a venalidade dos pobres, expande uma fé no direito. Nos Erga, o Hesíodo fala em primeira pessoa, abandonando a objetividade da epopeia, e torna-se porta-voz de uma doutrina contrária a injustiça e de exaltação ao direito. O poema foi considerado um reflexo do processo real em que o poeta admoesta seu irmão, procurando convencê-lo de que Zeus ampara a justiça, ainda que os juízes terrenos maculem-na, e de que os bens mal adquiridos não prosperam, e dirige a palavra aos juízes e senhores poderosos, na história do falcão e do rouxinol e em outras passagens. Hesíodo se encarrega, no plano terreno, do papel ativo de dizer a verdade ao irmão extraviado e afastá-lo do caminho horrendo da injustiça e da contenda.
Hesíodo retrata os novos tempos, menos heroicos e mais prosaicos no contexto em que a classe camponesa nascente e os habitantes da cidade sentiram a exigência da proteção do direito. É nesse sentido que o poeta, nos Erga, difunde a sua ideia do direito na vida geral e no pensamento dos camponeses. Conjugando a “ideia do direito com a do trabalho consegue criar uma obra em que a forma espiritual e o conteúdo real da vida dos camponeses se desenvolvem a partir de um ponto de vista dominante e adquirem um caráter educativo” (p. 99). O trabalho é celebrado como única via para alcançar a arete. Não se trata mais da arete da antiga nobreza, nem da arete da classe proprietária, baseada na riqueza, mas da arete do homem trabalhador, que se expressa pela posse moderada de bens. Em vez dos torneios cavaleirescos exigidos pela ética aristocrática, surge a acirrada disputa no trabalho. Hesíodo desejava, conscientemente, situar ao lado do “adestramento dos nobres, tal como se espelha na epopeia homérica, uma educação popular, uma doutrina da arete do homem simples. A justiça e o trabalho são os pilares em que ela se assenta” (p. 100).
Concluindo, Hesíodo eleva-se “acima da esfera épica, que apregoa a fama e interpreta as sagas, até a realidade e as lutas atuais” (p. 105).
Bibliografia:
Jaeger, Werner. Paidéia. A Formação do Homem Grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

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