1 – Por que Marx afirma que a história de todas as sociedades é a história da luta de classes?
Karl Marx afirma que a história de todas as sociedades é a história da luta de classes, pois, desde a Antiguidade até os dias atuais, as classes (geralmente opressores e oprimidos) vivem uma guerra ininterrupta, ora nítida, ora disfarçada. Essa guerra sempre terminou sob um dos dois modos: ou por uma transformação revolucionária (de toda sociedade), ou pela destruição das classes em luta.
Nas primeiras épocas históricas havia uma divisão integral da sociedade em classes distintas, uma escala graduada de condições sociais, acrescidas por novas divisões hierárquicas. A sociedade burguesa moderna, que emergiu dos destroços da sociedade feudal, não deu fim às disputas de classe, pois colocou no lugar novas classes e novas formas de opressão e de luta. Porém, contemporaneamente (na era do capital), houve uma simplificação dos antagonismos de classe, na medida em que a sociedade se dividiu em duas grandes classes opostas: a burguesia e o proletariado. (Marx; Engels, 1999, p. 7-8).
Partindo das disputas de classe, na qual as ambições da burguesia e do proletariado são diferentes e irreconciliáveis, emerge-se a luta de classes, onde cada classe tenta impor constantemente seus interesses sobre a outra. Porém, a classe dominante é quem, geralmente, obtém maior sucesso. Isso ocorre, pois, é ela quem tem maior força material para subjugar a outra classe e impor seus interesses. Para Marx, a única forma de alterar isso e fazer a classe oprimida ou dominada vencer a luta de classes, é através da revolução.
A Revolução Francesa (1789) é um grande referencial para Marx, pois representou a tomada do poder pela burguesia em detrimento do poder da monarquia e da aristocracia francesa. A revolução socialista, nesse sentido, representaria a ascensão do proletariado e a queda da burguesia. Para o pensador, uma revolução (como ápice da luta de classe) tem o poder de alterar a forma como a sociedade se organiza (suas bases), incluindo seu modo de produção, e desencadear novas formas sociais. É por esse motivo que Marx entende a luta de classe como motor da história.
2 – Como Marx define burguesia e proletariado e por que estão em conflito?
Em sua teoria, Karl Marx define a burguesia como a classe que detém os meios de produção (fábricas, indústrias, máquinas etc.), controla as relações econômicas (visando a geração de lucro, ou acumulação de capital, através da exploração do trabalho dos proletários, e a manutenção de sua posição social privilegiada), enquanto o proletariado é a classe trabalhadora que não possui os meios de produção e, portanto, depende da venda de sua força de trabalho (recebendo salários abaixo do valor do trabalho realizado) para sobreviver.
Os primeiros elementos da burguesia tiveram origem no final da Idade Média. Dos servos medievais nasceram os burgueses livres das primeiras cidades. Vários fatores contribuíram para o seu fortalecimento e acensão, como a descoberta da América, a circunavegação, a conquista de novos mercados (ex: Índia e China), o comércio colonial, o incremento dos meios de troca e das mercadorias, o desenvolvimento e impulso do comércio e da indústria e o surgimento de novas relações de produção. Segundo Marx, no mormento que a indústria, o comércio, a navegação, as vias férreas se desenvolviam, a grande indústria criou o mercado mundial, levando, consequentemente, ao crescimento da burguesia, “multiplicando seus capitais e relegando a segundo plano as classes legadas pela Idade Média”. (Marx; Engels, 1999, p. 9).
Partindo de uma visão evolucionista, Marx acreditava que a burguesia, em cada etapa da evolução, conquistava um poder político correspondente. Primeiramente, a burguesia era uma classe oprimida pelos déspotas feudais, passando por uma associação armada gerindo-se a si própria na comuna; depois, em alguns lugares, ocupou espaços na república urbana independente e no terceiro estado, tributário da monarquia; posteriormente, durante a fase da manufatura, foi uma força contrária para a nobreza na monarquia feudal ou absoluta e alicerce das grandes monarquias. Porém, com o estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial, conquistou, por fim, a soberania política exclusiva no Estado representativo moderno. Nesse aspecto, a burguesia teve um papel revolucionário na História, transformando, também, as relações familiares e atividades sociais em meras relações monetárias, assim como, impôs uma exploração aberta e brutal generalizada.
A partir desse panorama entende-se o surgimento do proletariado, que é um fruto do desenvolvimento da própria burguesia, id est, do capital. O proletariado, figurado no contexto do século XIX pela classe dos operários modernos, só podiam viver se conseguissem trabalho, e só encontravam-no na medida em que este aumentava o capital. Os operários, forçados a venderem-se diariamente, tornaram-se mercadoria, “artigo de comércio como qualquer outro”. Logo, “estão sujeitos a todas a vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado”. (Marx; Engels, 1999, p. 18).
Sob a mesma ótica evolucionista, Marx ressalta que o proletariado passa por diferentes fases de desenvolvimento. Logo que nasce, começa a lutar contra a burguesia. Inicialmente, operários isolados apoiam a luta, depois operários de uma mesma fábrica, em seguida operários do mesmo ramo da indústria, de uma mesma localidade, contra o burguês que os explora diretamente. Porém essa forma de luta ainda não representa o resultado de sua união, mas da própria burguesia que, para atingir seus objetivos políticos, é levada a conduzir todo o proletariado ao ataque dos pequenos burgueses. Gradualmente, em virtude de fatores como a crescente concorrência entre os burgueses, o aumento do número de proletários, de sua força e consciência, além da instabilidade e baixos salários, os choques entre o operário e o burguês adquirem o caráter de conflitos entre duas classes. É aí que os operários começam a se unir contra os burgueses e passam a defender melhores salários: surgem as associações permanentes. Em seguida, emergem motins e aumenta-se a união entre os trabalhadores, que passam a concentrar as lutas locais e nacionais, em uma luta de classes. “Mas toda luta de classes é uma luta política”. (Marx; Engels, 1999, p. 22). Logo, a organização do proletariado em classe, e partido político, apesar de suas dissoluções, sofre renascimentos e adquire mais poder, a ponto de exigir da burguesia o reconhecimento legal de certos interesses da classe operária. Nesse sentido, Marx afirma que só o proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária, sendo um produto mais autêntico do desenvolvimento da grande indústria.
Os proletários só conseguiriam se apoderar das forças produtivas sociais abolindo o modo de apropriação que pertenciam a burguesia. Sua missão “é destruir todas as garantias e seguranças da propriedade privada até aqui existentes”. (Marx; Engels, 1999, p. 25). Por conseguinte, para Marx, o proletariado só atingiria o poder quando ocorresse uma revolução aberta, estabelecendo, assim, sua dominação pela derrubada violenta da burguesia.
3 – O que é comunismo para Marx?
Para Karl Marx, o comunismo é um estágio necessário da história da humanidade (resultado inevitável da evolução das relações de produção capitalistas), além de um sistema socioeconômico que emergiria após fim do capitalismo, através de uma revolução.
Tal sistema seria caracterizado pela derrubada da supremacia burguesa; conquista do poder político pelo proletariado; abolição da propriedade burguesa (privada); expropriação da propriedade latifundiária e emprego da renda da terra em proveito do Estado; imposto progressivo; abolição do direito de herança; confisco da propriedade de todos os emigrados e sediciosos; centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco nacional com capital do Estado e com o monopólio; centralização, nas mãos do Estado, de todos os meios de transporte; multiplicação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado, arroteamento das terras incultas e melhoramento das terras cultivadas, segundo plano geral; trabalho obrigatório para todos, organização de exércitos industriais, particularmente para a agricultura; combinação do trabalho agrícola e industrial, medidas tendentes a fazer desaparecer gradualmente a distinção entre a cidade e o campo; educação pública e gratuita de todas as crianças, abolição do trabalho das crianças nas fábricas, tal como é praticado hoje; combinação da educação com a produção material. (Marx; Engels, 1999, p. 42-43).
Em síntese, uma vez que não existisse mais os conflitos de classe e toda a produção estivesse concentrada nas mãos dos associados, o poder público perderia seu aspecto político. Em outras palavras, se o proletariado se tornasse uma classe dominante, após a revolução, deixariam de existir as antigas relações de produção, até mesmo as próprias classes (e seus antagonismos).
Bibliografia:
Marx, K.; Engels, F. O manifesto comunista. Edição Ridendo Castigat Mores, 1999. (Versão para e-book).

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