Arte: The Stranger, Luchino Visconti. 1967.
“O Estrangeiro” é um filme franco-italiano de 1967, do gênero drama, dirigido por Luchino Visconti e baseado no livro homônimo (L'Étranger, 1942) do filósofo franco-argelino Albert Camus (1913-1960).
Visconti (1906-1976) foi um dos mais importantes diretores do cinema italiano e mundial. Era descendente da nobre família milanesa dos Visconti. Suas obras mais influentes foram '”La terra trema'' (1948); ''Ossessione'' (1943); “Rocco e i Suoi Fratelli” (1960); “Il Gattopardo'' (1963); ''La Caduta degli Dei'' (1969); ''Morte a Venezia'' (1971); ''Gruppo di Famiglia in un Interno'' (1974); entre outras. Foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro, pelo filme ''Os Deuses Malditos'' (1969); e ganhou a Palma de Ouro em Cannes de Melhor Filme com ''O Leopardo'' (1963), entre inúmeros outros prêmios.
O personagem principal do filme “O Estrangeiro” é Arthur Meursault (Marcello Mastroianni), um jovem escriturário que vive sua vida de forma pacata e invariável; nem mesmo a morte inesperada de sua mãe o faz sentir qualquer emoção. A única forma do protagonista fugir da rotina é manter um relacionamento sexual com sua colega (e futura parceira) Marie (Anna Karina) e sua amizade com o criminoso Raymond (Georges Géret).
Raymond bate na namorada e é processado por ela. No tribunal, Meursault testemunha a favor do amigo. Raymond escapa da punição, porém os parentes da namorada perseguem-no. Nesse contexto, em um determinado dia, convidado para a praia pelo próprio Raymond, Meursault mata friamente um homem que havia envolvido em uma briga. Assim começa um longo processo para entender o que o levou tomar tal atitude.
No geral, o personagem principal trata assuntos da própria vida e das pessoas ao seu redor com descaso, e os vê como eventos sem importância. A repetição da expressão “tanto faz” e “não importa” em várias cenas do filme, como a morte de sua mãe, as declarações de amor de Marie, o desaparecimento do cachorro de seu vizinho, a promoção que poderia receber no trabalho (e ir para Paris), retratam o caráter apático e indiferente de Meursault, assim como uma falta de sentido vital. Diante do julgamento no tribunal e na prisão, o personagem revela, gradualmente, uma tomada de consciência do absurdo.
No início da trama, Meursault vai até o asilo que sua mãe residia e passa o funeral e o enterro sem muito dialogar com quem lhe dirigia a palavra, conduzindo todo o momento com uma indiferença ardilosa (sem demonstrar luto ou tristeza) que incomodava os observadores. Quando regressa à Argélia, descansa por horas e ao se levantar observa sem julgar as pessoas na rua buscando suas motivações e destinos, quando o alvorecer o relembra que no dia seguinte a rotina voltará.
O protagonista possui a visão de que a vida é imutável e, desde que não haja infelicidade, não existem motivos para que se almeje mudança. O sentimento de estagnação de Meursault aparenta que ele observa sua vida de fora, como se fosse um estrangeiro para si mesmo (estrangeiro no sentido de coabitação em um mundo que não compreende, onde as convenções sociais e as normas morais são vistas como ilusões vazias). Sua tentativa de mudar a opinião das pessoas a seu respeito é minada pela preguiça, o que mais uma vez reflete sua apatia. Nesse sentido, é possível evocar a teoria absurdista de Camus que explora a experiência humana diante da falta de sentido e a indiferença do mundo.
Certo dia, seu amigo Raymond o convida para passar um domingo na casa de praia de um amigo, na qual Meursault aceita e leva também sua companheira, Marie. O casal os recebem e tudo parece correr bem, até que, de repente, em uma caminhada pela beira da praia, Raymond reconhece um homem do qual possuía desavenças pretéritas acompanhado de outro indivíduo, que parecia segui-los. O combinado era de que se houvesse conflito, Meursault ficaria responsável pela situação caso de surgisse outro indivíduo, porém, o que não esperavam, era que um dos árabes estivesse portando uma faca, que, durante a briga, acaba acertando Raymond antes que ele pudesse se defender. Depois do socorro prestado, Raymond insiste em voltar à praia e lá encontra novamente os árabes. Por recomendação de Meursault, Raymond nada faz e os dois retornam à casa.
O protagonista, repentinamente, parte ao encontro da fonte onde há pouco estivera com Raymond e, chegando lá, reencontra o árabe. Meursault identifica a veemência do sol com a mesma que fazia no enterro de sua mãe e, sem poder dizer o motivo que o fizera, aperta o gatilho da arma que trazia e mata o árabe. A partir de então, surge na narrativa uma sutil mudança na forma com que o personagem percebe os fatos, expresso pelo reconhecimento de ter destruído a estabilidade do dia.
No tribunal, a acusação utilizava as situações banais para atribuir frieza e premeditação ao crime de Meursault, como o fato dele não saber a idade da mãe ou ter ido ao cinema assistir uma comédia depois de sua morte. Em um outro sinal de “esclarecimento”, o personagem diz que os fatos se desenrolavam sem sua intervenção. “Acertavam o meu destino, sem me pedir uma opinião. De vez em quando, tinha vontade de interromper todo mundo e dizer: ‘Mas afinal quem é o acusado? É importante ser o acusado’” (Camus, 2001, p. 102). Nesse sentido, reside a importância de ser alguém e Meursault começa a reconhecer o absurdo. Diante vários argumentos utilizados e da decisão do júri, Meursault foi sentenciado à decapitação em praça pública.
Preso e aguardando o resultado de seu recurso, o personagem inicia um processo de identificação da injustiça pela qual foi sentenciado e nas circunstâncias que tornavam ilegítimas sua acusação. Além da teoria absurdista trazer ao indivíduo um questionamento sobre as condições injustas a que está subjugado, traz também a perspectiva de que a vida vale a pena ser vivida. Eis aí a possibilidade de encontrar significado na revolta e na aceitação da própria condição. Meursault, durante a prisão, tenta racionalizar que, afinal, todos nós morreremos e que não fazia diferença quando isso ocorresse. Contudo, começa a se angustiar pelo tempo que não teria em liberdade, um tempo interrompido por uma condição arbitrária que lhe foi imposta.
Na filosofia absurdista, quando os indivíduos percebem a impossibilidade de atribuir um sentido em sua vida, sua nossa noção de morte também é modificada, uma vez que eles não se agarram mais a conceitos metafísicos que lhes traziam algum tipo de segurança, fazendo com que aceitem a vida em seu absurdo, decidindo viver, apesar de tudo. O personagem constata o absurdo a que estava sendo submetido, visualiza a única certeza que tem em sua vida e, apesar da clara consciência a respeito da morte, tem a esperança de que seu recurso seja aceito, e que ele, novamente, seja um sujeito livre.
O clímax da revolta de Meursault ocorre em uma conversa com um padre que esporadicamente vai à sua cela e insiste que ele se arrependa, desejando, forçar uma conversação. Ocorre um momento em que o personagem já não consegue ouvir tudo aquilo com calma e então explode, descrevendo que durante toda sua vida absurda, “subira até mim, [...], um sopro obscuro, e esse sopro igualava, à sua passagem, tudo o que me haviam proposto nos anos, não mais reais, que eu vivia”. (Camus, 2001, p. 124).
Tomando ciência do absurdo da vida, Meursault entende o privilégio humano: o de estar vivo, independente de quem era ou do que fazia. Para isso, nota que sua nova consciência da morte permite que ele esteja habilitado a viver toda sua vida e que morrer, nesse sentido, é reviver. Camus elabora nesse livro prescrições básicas de sua filosofia do absurdo e com o passar da narrativa faz com que os leitores amadureçam com o personagem, passando, inicialmente, de uma aparente apatia, para o desespero, e, por fim, pela chance de permanecer vivo. Quando Camus desenvolveu esses conceitos, apontou que só existia um problema filosófico realmente sério: “julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida” (Camus, 2017, p.19).
É necessário ressaltar que o chamado “ciclo do absurdo” de Camus começa a se delinear a partir das obras “O Estrangeiro”, “O Mito de Sísifo” (1942) e a peça de teatro “Calígula” (1944), redigidas no contexto da Segunda Guerra Mundial. Para o autor, o absurdo não se trata de uma conclusão, mas sim de um ponto de partida. Antes de tudo, o absurdo é um sentimento que o indivíduo experimenta ao ser confrontado pela ausência de sentido de sua existência. Em outras palavras, o absurdismo de Camus é um estado de consciência que surge da incompatibilidade entre a necessidade humana de encontrar sentido na vida e um mundo aparentemente sem sentido ou propósito. É o reconhecimento, por parte da razão, dos seus próprios limites diante da irracionalidade da existência.
O personagem Meursault traz a tona a teoria absurdista camusiana a partir dos seguintes elementos: a indiferença à sociedade; falta de sentido (a narrativa destaca a falta de sentido na vida, a incapacidade de encontrar um propósito maior em um universo aparentemente alheio); revolta e aceitação (embora a obra explore o absurdo, Camus também sugere a possibilidade de revolta e aceitação da condição humana, sem buscar significados pré-definidos, reconhecendo a beleza e a singularidade da existência); desapego emocional (Meursault é um exemplo de desapego emocional, mostrando pouca emoção em situações que normalmente despertariam reação em outras pessoas); a revolta como resposta.
O feitio de Albert Camus e suas leituras de Nietzsche alimentaram as suas críticas com relação a moral tradicional. De forma inquietante Camus se lança ao questionamento: “como o homem deveria se conduzir em geral e, durante os anos obscuros, quando não acredita nem em Deus e nem na razão”?
É possível perceber em “O Estrangeiro” a convivência de dois vieses narrativos, um mais aproximado ao aspecto camusiano, o outro mais ligado ao gosto do diretor Luchino Visconti. Os característicos zooms da câmera recheiam a filmografia do diretor; no caso específico desse longa, ela dá uma ênfase não presente na obra literária, revelando que a releitura de Camus não se deu sem intervenções autorais. Essas duas posturas, concretizadas como duas formas distintas de olhar o mundo, convivem, contudo, harmonicamente, destacando, por contraste, o que há de peculiar na direção de Visconti.
Essa obra não alcançou a opulência de um “Rocco e Seus Irmãos” (1960) ou “O Leopardo” (1963). Porém, é necessário assistir ao longa para tirar suas próprias conclusões e observar que as diferenças, citadas acima, não ofusquem o que possa nele haver de interessante e sui generis.
Bibliografia:
Almeida, Guilherme. Crítica - O Estrangeiro (1967). Plano Crítico. Publicado em: 28 abr. 2018. Disponível em: <https://www.planocritico.com/critica-o-estrangeiro-1967/>. Acesso em: 18 jun. 2025.
Camus, Albert. O Estrangeiro. 20. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. 128 p.
___________. O mito de Sísifo. Trad. de Ari Roitman e Paulina Watch. 9°ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2017.
Dellagnezze, René. O estrangeiro, o existencialismo e a teoria do absurdo, no pensamento de Albert Camus. Âmbito Jurídico. Publicado em: 1 set. 2017. Acesso em: <https://ambitojuridico.com.br/o-estrangeiro-o-existencialismo-e-a-teoria-do-absurdo-no-pensamento-de-albert-camus/>. Acesso em: 18 jun. 2025.
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Monteiro, Jairo. Por que Ler "O Estrangeiro" de Albert Camus? Uma Jornada pela Absurdez da Existência. Jusbrasil. Publicado em: 25 abr. 2024. Disponível em: <https://www.jusbrasil.com.br/artigos/por-que-ler-o-estrangeiro-de-albert-camus-uma-jornada-pela-absurdez-da-existencia/2409537010>. Acesso em: 18 jun. 2025.
Oliveira, Gilstéfany. O absurdismo de Camus em O Estrangeiro. (EN)CENA - Saúde Mental. Publicado em: 17 nov. 2018. Disponível em: <https://encenasaudemental.com/post-destaque/o-absurdismo-de-camus-em-o-estrangeiro/>. Acesso em: 18 jun. 2025.
Link da imagem: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/pt/6/64/The_Stranger.jpg>. Acesso em: 18 jun. 2025.

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