quarta-feira, 18 de junho de 2025

Fichamento (Artigo): (In)visibilidades e poéticas indígenas na escola: atravessamentos imagéticos, de Alik Wunder e Alice Villela

Imagem: Ticuna. Maloca Pêrêtê no igarapé Preto (1930-31). Acervo Museu do Índio. in OpenEdition books. Web, 2020.

A seguir, disponibilizo o fichamento do artigo "(In)visibilidades e poéticas indígenas na escola: atravessamentos imagéticos" de Alik Wunder e Alice Villela.

P. 14-17:

Wunder e Villela buscam pensar a temática indígena na escola através da arte, no intuito de aumentar o poder das micropolíticas inventivas, para romper o estereótipo do “índio brasileiro”, e realizar uma ponte entre as artes visuais, a escola e povos originários.

O artigo traz três atravessamentos imagéticos que permitem questionar sobre a criação de outras visibilidades indígenas nos currículos escolares: o vídeo Ymá Nhandehetama, o Livro das Árvores do povo Ticuna e uma oficina de palavras e imagens.

Como aporte teórico foram citados Gilles Deleuze e Félix Guattari, que tratam de micro e macropolíticas, Eduardo Viveiros de Castro, que aborda sobre perspectivismo ameríndio, e autores como Suely Rolnik, Iara Bonin e Daniel Munduruku.

O curso que realizou a oficina de imagens e palavras, intitulado “A temática indígena na escola”, Campinas, 2016, levantou questionamentos sobre como os indígenas nos oferecem outras imagens e perspectivas de mundos.

O contato com as imagens indígenas dá acesso a outros regimes de verdade. Baseando-se em Viveiros de Castro (2007), acredita-se que somos levados a outros mundos, distintos do pensamento ocidental. A educação deve estar aberta à diferença.

Tendo em vista a noção de perspectivismo ameríndio, é possível entender os pensamentos indígenas como mecanismos de transformação do nosso conhecimento. A cosmologia amazônica e a formulação do multinaturalismo permitem tal mudança.

Conceitualmente, no perspectivismo ameríndio, há uma metamorfose entre forma humana e não-humana. Pensar os animais como ex-humanos representa o fato de que a base comum da humanidade e animalidade é a própria humanidade.

O perspectivismo ameríndio rompe com o dualismo do pensamento ocidental moderno e coloca em desequilíbrio conceitos “naturalizados”.

Deleuze e Guattari afirmam que tudo é político e descrevem sobre as micropolíticas (linhas flexíveis e moleculares) e macropolíticas (linhas duras e molares), sendo a última mais presente nas sociedades modernas (com um Estado unificado).

As linhas molares almejam unificar o poder criando dualismos excludentes e desiguais. Já as linhas moleculares representam linhas de fuga (das organizações binárias) e dão força a multiplicidade, intensificando-se nas micropolíticas.

Resumindo, Deleuze e Guattari entendem que as sociedades sem Estado (como as indígenas) permitem pensar conceitualmente nas linhas moleculares e no encontro com outros modos de organização social, com suas linhas de fuga.

Wunder e Villela refletem sobre como seria possível, através dos desafios conceituais abordados, propor encontros de criação com professores(as) visando potencializar micropolíticas de “in(ter)venção” na pesquisa, na arte e no dia a dia escolar.

P. 17-21:

Atravessamento 1: Vídeo Ymá Nhandehetama, Eramos Muitos


Na epígrafe do parágrafo há uma narração de Almires Martins, guarani e terena, sobre a invisibilidade social, jurídica, acadêmica (científica) dos povos indígenas.

No vídeo, as palavras de Martins, primeiro doutor indígena em antropologia da Universidade Federal do Pará, geram uma “fenda nos discursos de poder”, e abrem outras perspectivas.

A invisibilidade indígena é reproduzida nos discursos e imagens das universidades e da escola moderna. Há um apagamento da presença indígena na história do país, o que é notado quanto ao desconhecimento da diversidade de povos que vivem no Brasil.

Para Iara Bonin (2012) a imagem do “índio brasileiro” é ficcionalizada, na medida em que esse é tido como exótico, laudatório e contribuinte à hipotética “cultura nacional unificada”, apagando, assim, as relações desiguais de saber.

Bonin, em outro texto, ressalta que existem muitas práticas e discursos que tentam tornar visível o pluralismo cultural e destacar a “vivência harmônica” entre povos, porém acabam tratando as culturas superficialmente e exaltando, apenas, o exotismo.

Iara, novamente, trata das invisibilidades que são produzidas dentro das imagens escolares do indígena, principalmente o apagamento da violência histórica, que teria produzido um genocídio, e dos vestígios das resistências indígenas no contexto colonial.

Nesse sentido, os livros didáticos e pinturas da época colonial apresentam os indígenas como submissos aos portugueses quando chegaram ao “Brasil”, e reproduzem traços, estereotipadamente (e pejorativamente), de índios como “bons selvagens”.

Além do apagamento apontado, tem-se uma visão evolucionista que coloca o indígena como atrasado socialmente, e sua cultura como primitiva, em relação às culturas europeias. Os saberes indígenas também são tachados de “folclore” ou “mito”.

Dos exemplos citados, é possível inferir que os modos de dar (in)visibilidade apagam as várias imagens que se fazem no seu processo de reinvenção identitária, de luta por direitos, nas cosmovisões e em sua diversidade étnica e linguística.

P. 21-27:

Atravessamento 2: O Livro das Árvores do povo Ticuna

O Livro das Árvores, escrito e ilustrado por professores(as) Ticuna, permitem ao leitor, conhecer, por meio de narrativas, transcritas para o português, várias possibilidades de percepção e de modos de expressão do povo indígena Ticuna.

Inicialmente, a narrativa apresenta a diversidade de árvores existentes em seu território (no Brasil, localizadas no estado do Amazonas). Para esse povo, cada árvore é única e importante, e diferencia-se das demais por seus detalhes.

Logo, essa visão se distingue da forma como nossa sociedade concebe as árvores e a floresta, generalizando-as, e, ao tomar como modelo a imagem genérica da árvore escolar, tem-se uma limitação de nossas percepções e relações com a própria floresta.

Dentro dos próprios Ticuna exitem uma multiplicidade de expressões individuais no âmbito da coletividade indígena, o que pode ser percebido no modo como são realizadas as suas criações.

A relação dos Ticuna com a floresta são estabelecidas pela presença das árvores em suas cosmologias de origem do mundo: uma grande samaumeira não permitia que a luz entrasse no mundo; após outros processos, o povo Ticuna surgiu a partir dos peixes.

Para os Ticuna, a floresta é povoada por sujeitos, seres, espíritos, donos e intencionalidades. Ademais, esse povo possui relações sociais com os animais e demais seres, dialogando com a teoria do perspectivismo ameríndio de Viveiros de Castro.

No curso “A temática indígena na escola” (2016), os professores foram desafiados a pensar com imagens e textos do O Livro das Árvores, visando desestabilizar ideias fixas e enrijecidas do conceito de natureza.

Na obra supracitada, encontra-se uma narração sobre como a árvore encantada, que havia existido desde a origem do mundo, teria dado origem aos peixes.

Nessa lógica, há um outro modo de explicar os ciclos biológicos em relação aos conhecimentos biológicos e científicos ocidentais que, para o povo Ticuna, trata-se não somente de uma crença, mas de uma narrativa tradicional que é atual.

Wunder e Villela citam o historiador Nhenety Kariri-Xocó, que ajuda a pensar e contrapor o estatuto de verdade das narrativas na visão dos próprios indígenas ao modo como é interpretado pelos não-indígenas.

Ao ser perguntado por uma pesquisadora que foi à sua aldeia para saber dos “mitos e lendas”, Nhenethy respondeu que, na tribo, não existiam mitos e lendas, pois, entre os índios, “mitos e lendas são verdades absolutas”.

Pensado sobre o modo de trabalhar com outras formas de verdade na escola, as autoras citam Viveiros de Castro (2002) que, a partir da sua obra, permite dar luz ao modo como a educação pode se abrir ao conhecimento indígena.

Para Viveiros de Castro, quando você dá a devida importância ao pensamento nativo, é possível utilizá-lo e verificar os efeitos que ele pode produzir em “nossa concepção”. Em resumo, a antropologia permite multiplicar nosso mundo.

O Livro das Árvores propõe o questionamento sobre a nossa definição escolar de natureza. Os Ticuna, nesse aspecto, convidam o leitor a aceitar a coexistência de naturezas e diferentes humanidades.

P. 27-30:

Atravessamento 3: Oficina de criação fotográfica e poética, micropolíticas inventivas

Para dar força às vozes indígenas, foram realizadas, a partir das reflexões realizadas por Almires Martins, Iara Bonin e D, Mundukuru, oficinas de experimentação com imagens que retratam o indígena com marcas identitárias generalizantes.

Além do campo imagético, as autoras utilizam-se de grafismos de pintura corporal do povo Asurini, desenhos de árvores e de seres da floresta do povo Ticuna, desenhos e palavras de sonhos de xamãs do povo Yanomami e poemas de escritores(as) indígenas.

Durante movimento de experimentação, os(as) professores(as) foram incitados a criar “cartões postais” através de deslocamentos e invenções com os materiais selecionados.

Os recortes e colagens criaram novas conexões entre as imagens e os termos sobre indígenas que permeiam o imaginário escolar, as pinturas, desenhos, poemas que nos são oferecidos pelos artistas indígenas.

As oficinas eram processos de criação coletiva, e, durante o movimento de criação, as imagens do “índio escolar” (estereotipado) eram reformuladas por outras narrativas. Há uma violência nos discursos que buscam harmonizar a história da formação nacional.

Outros conceitos de arte, de vida e de ritual podem ser propostos a partir de palavras em línguas indígenas e de linhas gráficas que ampliam horizontes visuais (cestos, tecelagens, pulseiras etc).

A coexistência de povos rompe com a rigidez das linhas molares e unificadoras (macropolítica) e multiplica horizontes de humanidade. Em outras palavras, as poéticas indígenas permitem criar futuros possíveis e fortificar as micropolíticas atuais.

Bibliografia:
Wunder, Alik; Villela, Alice. (In)visibilidades e poéticas indígenas na escola: atravessamentos imagéticos. Teias, Rio de Janeiro, v. 18, n. 51, p.14-32, out./dez. 2017. Disponível em: <https://www.e-publicacoes.uerj.br/revistateias/article/view/30739>. Acesso em: 18 jun. 2025.

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