Cada ser humano carrega algo antinômico dentro de si: a cogniçãoi ou consciência de um abismo ou vazio existencial e do nada. Sem pretender aprofundar no debate acerca da neurofisiologia da consciênciaii, ou nas diferentes concepções filosóficas acerca dos respectivos entesiii, desejo apenas situar o fenômeno do existenzielle Leere, também referido em alguns contextos específicos como die existentielle Sinnlosigkeit (a falta de sentido existencial), das Sinnvakuum (o vácuo de sentido/significado), die innere Leere (o vazio interior), da “conscience du néant” (consciência do nada).
Elencando três áreas, podemos arrazoar que:
Do ponto de vista filosófico, Friedrich Nietzsche, expoente da corrente niilista, entende que o "nada" (nihil) está ligado ao niilismo, isto é, a desvalorização dos valores supremos (como Deus e a verdade absoluta). Porém o filósofo defende a superação do nillismoiv, corporificado pelo Übermensch (Além-do-homem ou Super-homem), ou seja, Nietzsche almeja a transposição da "vontade de nada", através da criação de novos valores (Umwertung aller Werte) pela vida e pela vontade de poder/potência (Wille zur Macht). Há uma transformação do abismo do nada em uma força criadora, eis aí a der gute Krieg (a boa guerra)v.
Martin Heidegger concebe o nada como algo intrinsecamente ligado à própria experiência do ser-aí (Dasein), o ser humano. A angústia revela a limitação do ser humano (no sentido de revelar os limites temporais e a responsabilidade radical da existência humana) e a possibilidade da morte, que o lança diante do nada (das Nichts). Esse nada não é uma mera ausência, mas o pano de fundo da existência. Ad hunc modum, o nada é a antecipação da finitude, que desfaz os devaneios do cotidiano e move o ser humano na busca pelo sentido existencial, fomentando a passagem de uma vida inautêntica para uma existência autêntica. (Werle, 2003 e Davin, 2025).
Jean-Paul Sartre entende que o ser possui consciência do nada (néant), que trata-se de uma possibilidade constante de não-ser. In nuce, a consciência humana é fundamentalmente definida pela sua capacidade de se distanciar do ser (néantisation) e de conceber a ausência, a falta e a possibilidade da não-existência, residindo aí uma consciência da própria finitude e da liberdade (atrelada à angústia) que acompanha essa consciência. En d’autre mots, João Albuquerque pontua que “a consciência é um ser que consegue questionar as coisas e a si mesmo, e que ela é o para-si devido ao fato de que ela se relaciona em-si e para consigo mesmo”, e complementa:
chegamos à ideia do nada por meio da negação, porque a negação representa o não-ser e o não-ser é compreendido como nada. Logo, devemos entender que o nada surge do juízo da negação, do não-ser, que é fruto da nossa consciência quando tenta definir/responder alguma manifestação que se apresenta na realidade do mundo. […] não podemos compreender o nada fora do ser, nem como algo fechado e quimérico, e nem podemos fazer relações do nada ao ser. […] Logo, o nada não advém de si e nem do em-si, mas sim da consciência do homem. Pois é quando indagamos que surge o não-Ser (Albuquerque, 2013, p. 4).
Partindo da ótica psicológico/experiencial, há pessoas que relatam experiências de “vazio” ou “ausência” em estados de meditação profunda, luto, perdas, ou crises existenciais/valorativas. Nesses estados, a pessoa pode possuir uma de sensação (res melius perpensa, cogniçãovi) de ausência de estímulos sensoriais e de ego, além da falta de propósito, significado e conexão na vida, caracterizada por apatia, desmotivação e desconexão, o que pode ser interpretado como uma consciência direta do nada.
Diante do quadro de vazio existencial recomenda-se buscar autoconhecimento e psicoterapia para (re)encontrar sentido e ressignificar a própria vida. Dentre os caminhos possíveis, a Logoterapia, elaborada por Viktor Frankl, busca ajudar o indivíduo a descobrir seu propósito e sentido de vida, mesmo momentos adversosvii. Frankl aponta que as neuroses noogênicas emergem da dimensão espiritual/existencial do ser humano, ligadas à falta de sentido (vazio existencial), e não apenas de conflitos biopsicológicos. Logo, a sensação de que a vida não tem significado é central para essas neuroses, levando à angústia e à busca desesperada por um propósitoviii; já a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) auxilia na compreensão dos pensamentos disfuncionais atuais e no desenvolvimento de estratégias para aceitar e monitorar sentimentos; por fim, a Psicanálise/Gestalt-terapia entende o vazio como uma condição estrutural da ψυχή (psyché), um "nada fértil” (“creative emptiness”) que impulsiona o desejo e a busca por completude, ensinando a conviver com essa falta sem preenchê-la externamenteix.
Sob a última abordagem, o psicanalista Jacques Lacan entende o vazio como falta. À savoir, o vazio (vide) está ligado a uma perda específica (verbi gratia, de identidade profissional ou relacionamento) e possui um contorno ou bordas, isto é, um lugar onde algo foi removido. Já a falta (manque) refere-se a uma falta "de-ser", que impede o sujeito de atingir a completude, porém é uma mola propulsora do desejo, que é uma busca ad aeternum por preencher essa ausência, embora o preenchimento total seja impossívelx. Sucintamente, a falta é a causa do desejo, e não a perda de um objeto, ou, a falta “não é relativa a um objeto primordial, mas está ela mesma na origem da experiência do desejo, ou seja, é condição de possibilidade desta última” (Darriba, 2005, p. 67).
Praeterea, em uma terceira abordagem, neurocientífica, a “experiência do nada” ou vazio mental (mind blanking) não é a ausência de atividade cerebral, mas sim um estado cerebral específico. Ut breviter dicam, esse estado, longe de ser uma ausência total de atividade, representa um padrão sui generis de funcionamento cerebral, onde a atividade consciente de alto nível reduz, assemelhando-se a um “cochilo local” (local sleep) enquanto o indivíduo está acordado e responsivo. (Cf. Kawagoe, 2019).
Judson Brewer et alli indicam que a experiência de meditação está associada a alterações na atividade e conectividade em redes cerebrais, como a Default Mode Network (Rede de Modo Padrão), especificamente no hipocampo e no giro frontal inferior (incluindo a área de Broca, associada à linguagem interna), que é responsável pelo pensamento autorreferencial (senso de self) e pela “mente errante” (mind-wandering) ou divagação mental. Em suas palavras, “os principais nós da rede do modo padrão (córtex pré-frontal medial e córtex cingulado posterior) estavam relativamente desativados nos meditadores experientes em todos os tipos de meditação” (Brewer et al., 2011, p. 20254). Assim, a ausência de pensamentos pode ser interpretada subjetivamente como a experiência do nada, embora o cérebro mantenha-se ativo (o cérebro pode, temporariamente, desativar partes de si mesmo sem desligar o corpo inteiro)xi.
Concludi potest que a consciência do vazio e do nada, partindo de uma concepção nietzschiana, existencialista, psicanalítica/Gestalt-terapia e da prática meditativa, atuam como uma força canalizadora para a (liberdade e responsabilidade de) ressignificação ou encontro com o próprio Ser-aí. Cest-à-dire que, o vazio e a consciência do nada agem como um potencial de criação, ou abrem espaço para o surgimento de significado e renovação, em contraste com o vazio existencial de falta de sentido (conforme observado por Viktor Frankl) e o niilismo passivo.
Notas:
i K. T. Maslin classifica os estados mentais sob seis categorias: sensações, cognições, emoções, percepções, estados de quase-percepção e estados conativos (aboutness). Maslin, K. T. Introdução à filosofia da mente. Trad. Fernando José R. da Rocha. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2009, p. 17.
ii Nani, Andrea et al. The Neural Correlates of Consciousness and Attention: Two Sister Processes of the Brain. Frontiers in neuroscience, vol. 13 1169, 31 Oct. 2019, doi:10.3389/fnins.2019.01169. Disponível em: <https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6842945/>. Acesso em: 15 jan. 2026; Goldfine, A. M., & Schiff, N. D. Consciousness: its neurobiology and the major classes of impairment. Neurologic clinics, Volume 29, Issue 4, November 2011, p. 723-737. https://doi.org/10.1016/j.ncl.2011.08.001. Disponível em: <https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3222861/>. Acesso em: 15 jan. 2026.; Hall, John E. Tratado de Fisiologia Médica [recurso eletrônico]. Tradução Alcides Marinho Junior et al. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011, p. 744.
iii Cf. o debate dos pensadores meontológicos, que estudam o não-ser (μή ὄν) enquanto um princípio vinculado à ontologia, com autores que conectam o nada ao não-ser, ou seja, o nada como uma categoria da existência humana, como Heidegger e Sartre. Aqui é citada apenas a concepção existencialista sartreana e heideggeriana.
iv A “superação do niilismo só pode ser operada no e pelo próprio niilismo, mesmo sendo este um sintoma da décadence. Assim como sua maneira de filosofar dionisíaca, Nietzsche quer fazer do niilismo uma experiência singular de conflito e resistência na qual a negação ou a afirmação da vida se revelam como sintoma de força ou declínio”. Cassiano, Jefferson Martins. A lógica do niilismo: O sentido do valor do nada na filosofia de Nietzsche. Dissertatio, Revista de Filosofia, Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, v. 48, s/n, p. 258-285, 2018, p. 281. Disponível em: <https://periodicos.ufpel.edu.br/index.php/dissertatio/article/view/10374>. Acesso em: 16 jan. 2025.
v Correia, André F. G. Sobre criar e destruir em Nietzsche: A saúde da tensão e a doença da cisão. Revista Agon, Revista de Filosofia, UFRGS, vol. 1, n. 1, 2021. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/index.php/agon/article/view/133359/88908>. Acesso em: 16 jan. 2025.
vi Maslin define sensação (awareness) como o sentimento de dores, cócegas, vibrações, formigamentos e cognição como acreditar (crença), saber, compreender, conceber, pensar e raciocinar. (Maslin, op. cit., p. 17).
vii Frankl, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Traduzido por Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25. ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2008.
viii Idem. Teoria e terapia das neuroses: introdução à logoterapia e à análise existencial. Tradução de Claudia Abeling. 1. ed. São Paulo: É Realizações, 2016
ix Poderiam ser citados vários teóricos, como Melanie Klein, André Green (com sua teoria sobre a “psicose branca”), e Carl Jung (que entende que o “vazio” está associado à “individuação” e à “viagem noturna pelo mar/ Nachtmeerfahrt”, onde é preciso realizar o mergulho no escuro do inconsciente, semelhante à νέκυια (nékyia) e a κατάβασις (katabásis), para o renascimento psicológico).
x “A existência de um vazio, impossível de ser preenchido, é o que caracteriza o lugar de das Ding [a Coisa], para o qual alguém sugeriu a Lacan a analogia com o vacúolo”. Lucero, A.; Vorcaro, Â.. Do vazio ao objeto: das Ding e a sublimação em Jacques Lacan. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 16, n. spe, p. 25–39, abr. 2013, p. 32-33. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/agora/a/TBHzkKkz3B9hHxpDdWDwFfd/?format=pdf&lang=pt>. Acesso em: 16 jan. 2025.
xi Pode-se traçar um paralelo com a teoria budista acerca do vazio ou शून्यता (shunyata).
Link da imagem, disponível em: <https://revistacasaejardim.globo.com/Casa-e-Jardim/Arte/noticia/2022/06/arte-de-rafael-mesquita-estampa-livro-que-aborda-reflexoes-humanas.html>. Disponível em: 17 jan. 2026.
Bibliografia:
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