Velho índio pintado com tinta preta da guerra. (Foto: Marcos Ermínio)
Yancey Cravat, Tenente Dunbar, Dersu Uzala. O que esses personagens têm em comum? O ideal “selvagem” e a amizade com pessoas de outras culturas.
Antes de adentrar nas características de cada personagem, é necessário entender sobre o intercâmbio cultural. Alguns sociólogos compreendem vivemos em uma teia social na qual existe uma complexa rede de relações e interações entre indivíduos em uma comunidade ou sociedade. Norbert Elias, por exemplo, desenvolveu uma teoria sociológica (configuracional) que analisa conexões e processos sociais com base nas interdependências entre as pessoas. Sinteticamente, as teias de interdependência são relações sociais entre indivíduos que seguem regras de comportamento e trocas; tais teias, ou configurações (família, aldeia, cidade, estado, nações), devem se transformar qualitativamente, ou seja, aumentar a complexidade e diversificação da rede de interesses e necessidadesi.
Ok. Mas qual a relação disso com o intercâmbio cultural (ou aculturação)? Pois bem, quando adentramos novas culturas ou grupos culturais, temos contato com novas teias de interdependência (fixamos trocas, adotamos ou impomos regras comportamentais etc). Em outras palavras, através da imersão em novas configurações sociais, estabelecemos trocas culturais, que, penso eu, podem ser positivas (construtivismo), como sincretismos religiosos, ou negativas (desconstrucionistas), como o apagamento, a mudança forçada do modus vivendi “local”. Seguirei com três indivíduos que experienciaram tal fenômeno.
Sr. Cravat, mais conhecido como Cim, é um personagem do romance Cimarron, de Edna Ferber (publicado em 1930)ii. A história se passa no final do século XIX, nos EUA, quando o idealista Yancey se muda com sua esposa Sabra e seus filhos do estado do Kansas para o Território de Oklahoma, que na época ainda pertencia aos nativosiii. Ele trabalhava como editor de um jornal, além de ser um advogado, o que o permitiu tornar-se rapidamente uma das pessoas mais influentes da região. Entretanto, Yancey continua sua busca por novos horizontes e deixa sua esposa para aventurar-se na Cherokee Strip (território localizado no que é hoje o estado de Oklahoma)iv.
Pode-se dizer que Cimarron remonta ao conceito de não domesticado. O contato de Cim com os cherokees, osages, seminoles, creeks, choctaws, chicksaws ao longo do romance certifica o desejo indômito de Yancey de contactar novas culturas e estabelecer uma amizade com os povos indígenas da região, sendo revelada gradualmente ao longo da obra (a cena do filho do protagonista - Cim - participando de um ritual de peyote é inolvidável):
“Escuridão. A total escuridão que precede a madrugada. Silêncio, exceto pelo ruído dos cascos dos cavalos trotando e o gemer das rodas da carruagem. Então, quando Sabra diminuiu a marcha, meio hesitante, sem saber o que era melhor fazer, eles ouviram o som — as misteriosas cadências da canção do mescal, o ruído como de granizo do chocalho sendo sacudido vigorosa e monotonamente; e abaixo, acima e em todo o redor, repercutindo, tenebroso, agourento, o ecoar dos tambores de couro de gamo. Os sons lhes chegavam através da tranquila, fria noite da campina — à mulher angustiada e ao calmo, pacífico judeu. Sons bárbaros, selvagens, sinistros. Ela fez os cavalos estancarem. Os dois ficaram uns instantes sentados, ouvindo. Ouvindo. O tambor. O som selvagem do tambor.
[…] — Ele deve estar na tenda do mescal junto à casa de Grande Alce. Foi construída quando ele era chefe, e ainda é usada regularmente para a cerimônia. [...]
Piscando, tropeçando um pouco, Sol e Sabra entraram na tenda do mescal repleta de gente. A cerimônia estava quase no final. Com o romper da madrugada, estaria terminada. Cega pela luz, Sabra a princípio nada pôde discernir a não ser a fogueira central e a figura agachada em frente. Mas os olhos dela corriam para este e aquele lado, procurando-o. Gradualmente, sua visão se tornou mais nítida. As figuras dentro da tenda não deram a menor atenção aos dois intrusos brancos, que tinham parado à entrada, perplexos, aterrados, mas com coragem. No centro, um crescente de terra de uns quinze centímetros de altura circundando a fogueira feita de gravetos arranjados de tal forma que as cinzas ao caírem formavam um segundo crescente dentro do outro. Um homem agachado cuidava do fogo, atento, absorto. No centro do crescente, sobre uma pequena estrela feita de gravetos de salva, estava o mescal, símbolo do rito. Defronte deles se achava o chefe, o velho Chifre Cortado, no lugar de honra, os emblemas de seu cargo nas mãos — o chocalho, o cetro, o leque de penas de águia. Por toda parte na tenda, viam-se figuras agachadas ou estiradas, envoltas em cobertores. Alguns tinham a cabeça abaixada, outros olhavam fixamente para o botão de mescal no centro. Todos tinham estado comendo o mescal ou bebendo uma infusão na qual o botão fora macerado. De vez em quando, um deles lentamente cobria a cabeça com o cobertor e se encolhia para receber a visão. E a canção continuava, a cabaça chocalhava, o tambor de couro soava e ressoava. O ar do ambiente era sufocante, o interior da cabana impecavelmente limpo.
[…] O rapaz respirava regularmente. Em todo o recinto havia uma atmosfera de devaneio, de desfalecido êxtase. Se os índios por acaso olhavam para Sabra, para Sol, para os esforços que os dois faziam para despertar Cim, era com os olhos de sonâmbulos. Em seus lábios havia um sorriso de felicidade. Às vezes, eles oscilavam um pouco o corpo. O fogo sagrado lançava labaredas cor de laranja, escarlate e douradas. O velho Chifre Cortado abanava de um lado para outro seu leque de penas de águia. As cadências tremulantes da canção do mescal subiam e baixavam ao acompanhamento incessante do chocalho e do tambor. O homem branco e a mulher branca, ambos frágeis, puxavam com esforço o corpo inerte do rapaz” (FERBER, 1983: 237-243).
Já John Dunbar (Kevin Costner) é um oficial de cavalaria que se destaca como herói na Guerra Civil Americana (depois de um ato suicida no front do Campo de St. David, Tennesse, em 1863) e, por isto, recebe o privilégio de escolher onde quer servir. Cansado da Guerra Civil Americana, ele escolhe um posto longínquo na fronteira. Chegando ao local, o tenente se identifica com o ambiente solitário e, na companhia do seu cavalo Cisco, se estabelece para aguardar a vinda do exército. Com o passar do tempo, um lobo começa a se aproximar e ambos criam uma curiosa amizade. John também cria laços com um grupo de índios Sioux/Lakota, sacrificando a sua carreira com o exército estadunidense em favor da sua ligação com este povo, que o adotavi.
Porém, inicialmente, o contraste de cultura começa quando os índios Sioux descobrem a presença do tenente no forte próximo à aldeia. Primeiramente, o encontro acontece com ameaças de ambos os lados, mas Dunbar ganha a confiança deles após encontrar a viúva “De Pé com Punho” (Mary McDonnell) machucada próximo da aldeia. Com o tempo, ele assimila os costumes dos nativos e começa a se tornar um deles. Em resumo, para além do maniqueísmo vilão e herói, Dunbar influi no modo de vida Comanche, aprendendo (e trocando conhecimentos) sobre modos de guerrear, caçar (perseguição dos búfalos), viver em comunidade tribal.vi.
Por fim, Dersu Uzala, personagem do filme homônimo de Akira Kurosawa (1975), é um caçador nanai e eremita que detém o conhecimento da vida na natureza, e, costumado a viver nas estepes siberianas, desenvolve uma improvável amizade com o capitão soviético Vladmir Arseniev, homem “culto e civilizador”. Os dois se cruzam em uma noite quando Dersu (Maxim Munzuk, 1912-1999) aparece no acampamento do exército russo comandado por Arseniev (Yury Mefodievich Solomin), e que percorre a Sibéria em missão cartográfica.
Os soldados da companhia encaram o caçador como um “louco”, porém Arseniev cria empatia com ele e convida-o para ser o seu guia, já que Dersu estava familiarizado com a região. É assim que se cria a ligação entre os dois homens, uma incrível amizade que ultrapassará vários anos – a trama se inicia em 1902 e vai até o final desta década. Dersu é um homem solitário que, após ter perdido a mulher e os filhos para a varíola, percorre as florestas integrado a vida selvagem; fala com os animais e, mesmo sendo caçador, só mata os animais que lhe forem estritamente necessários para sobreviver. Durante o transcorrer do tempo, Arseniev vai se encantando mais e mais com o Dersu, que lhe salva a vida durante um terrível temporalvii.
"Naquele que é um dos momentos mais marcantes do filme, de uma beleza austera, o Capitão e Dersu separam-se do resto da companhia na tentativa de chegar a um longínquo lago gelado, no meio de planícies desoladoras e inóspitas, onde o branco do chão só é substituído por algumas ervas castanhas a sair da terra. É por ali que ambos se perdem ao tentar encontrar o caminho de volta para os seus companheiros; e é, enquanto o Sol se põe, que se apercebem que já não os vão conseguir encontrar antes da chegada da noite. Perante tal perspectiva, torna-se necessário cortar o maior número dessas tais ervas castanhas, para que se consigam proteger do frio rachante que irá chegar. Toda a filmagem desses momentos é impressionante, desde as sequências de ambos a cortar as ervas à maior velocidade possível, enquanto o Sol se põe, à forma como o Capitão é incentivado por Dersu a continuar, mesmo quando já está exausto e não se consegue manter em pé. Quando a certa altura deixa mesmo de conseguir e cai inconsciente, Dersu acaba a cobri-lo no tal abrigo, uma verdadeira obra de engenharia construída apenas com ervas, corda e neve, perfeito exemplo de como Dersu estava preparado para sobrevivência mesmo nas piores condiçõesviii".
Os dois amigos acabam se separando após o término da missão do russo. Mas irão se reencontrar anos depois, porém em outro cenário. Dersu empreende uma viagem sozinho através das estepes. O russo retorna à civilização com o fruto de suas pesquisas topográficas. Uzala já com mais idade e habilidades reduzidas, já não possui a destreza e a visão para o tiro – atributos imprescindíveis para um caçador. Seu amigo Arseniev oferece-lhe, então, a própria casa, e propõe levá-lo à cidade. O mongol aceita relutantemente. Acontece o imaginado: “Dersu não se adapta à vida na cidade. Como um espírito livre como o dele pode viver tolhido pelos limites da lei e dos costumes? Não pode portar armas, nem atirar; não pode dormir em barraca; sua forma de ser e aparência agridem as pessoas. Vive triste, pois não encontra um lugar nessa sociedade: seus conhecimentos são inúteis na civilização. Toma então a decisão de retornar a Sibéria. Cumprir o seu ciclo: morrer em seu habitat!”ix.
Arseniev compreende sua decisão. Na despedida, presenteia-o com um moderno rifle, de alta precisão, que não exige visão apurada. Com ele, Dersu poderá caçar novamente. Mas, por força da ironia, será esse o instrumento de sua morte, posteriormente. O filme inicia e termina com a procura que o capitão empreende, para descobrir onde Dersu Uzala foi enterrado. Seu túmulo estava escondido, pois a floresta onde estava seus restos mortais foi destruída para dar lugar a uma recente construção de casas. Uzala foi assassinado por um ladrão que cobiçava seu moderno rifle, presente do amigox.
Explorar a natureza humana é impressionante. Yancey, Dunbar e Dersu / Arseniev são exemplos concretos de que o contato cultural e a imersão em diferentes teias de interdependência são enriquecedores, seja ele com povos originários ou militares de outro país, porém, pode apresentar efeitos deletérios, como no caso de Dersu, que sofreu duras penas ao tentar integrar-se na sociedade citadina.
i SILVA, J. A. Sociedade e indivíduo: A sociologia configuracional de Norbert Elias. CSOnline - REVISTA ELETRÔNICA DE CIÊNCIAS SOCIAIS, [S. l.], n. 29, 2019. DOI: 10.34019/1981-2140.2019.17586. Disponível em: <https://periodicos.ufjf.br/index.php/csonline/article/view/17586>; COSTA OLIVEIRA, F. R. Figuração, interdependência e indivíduo-sociedade no pensamento de Norbert Elias. Perspectivas em Diálogo: Revista de Educação e Sociedade, v. 8, n. 17, p. 75-93, 30 jun. 2021. Disponível em: <https://periodicos.ufms.br/index.php/persdia/article/view/12732>. Acesso em: 15 fev. 2025.
ii FERBER, Edna. Cimarron. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
iii O Território Cimarron era um nome não reconhecido para a Terra de Ninguém, uma área não colonizada do Oeste e Centro-Oeste, especialmente terras outrora habitadas por tribos nativas americanas como os Cherokee e Sioux. Em 1886, o governo declarou tais terras abertas à colonização. Na época da abertura do romance, Oklahoma é um desses “Territórios Cimarron”, embora na realidade o cenário histórico do romance seja em algum lugar no Cherokee Outlet, também conhecido como Cherokee Strip, e provavelmente a cidade de Guthrie, Oklahoma. Na corrida pela colonização, 800 mil hectares foram ofertados gratuitamente, e os homens que a proclamassem seriam seus donos.
iv https://filmow.com/cimarron-t4660/ficha-tecnica/. Acesso em: 19 fev. 2025.
v TAVARES, Cícero. Dança com Lobos (1990). Uma obra-prima de aventura oesteana. In: Jornal da Besta Fubana. Disponível em: <https://luizberto.com/danca-com-lobos-1990-uma-obra-prima-de-aventura-oesteana/>. Acesso em: 19 fev. 2025.
vi JOSÉ, Jefferson. #RapaduraRecomenda – Dança com Lobos (1990): a obra-prima de Kevin Costner. In: Cinema com Rapadura. Disponível em: <https://cinemacomrapadura.com.br/criticas/584172/rapadurarecomenda-danca-com-lobos-1990-a-obra-prima-de-kevin-costner/>. Acesso em: 19 fev. 2025.
vii IZIDORO, Chico. Dersu Uzala. In: Correio do Povo. Publicado em: 05 ago. 2020. Disponível em: <https://www.correiodopovo.com.br/blogs/cinecp/dersu-uzala-1.460201>. Acesso em: 19 fev. 2025.
viii DUARTE, Miguel. ‘Dersu Uzala’: um olhar sobre a humanidade. In: Comunidade Cultura e Arte. Publicado em: 04 ago. 2016. Disponível em: <https://comunidadeculturaearte.com/dersu-uzala-um-olhar-sobre-a-humanidade/>. Acesso em: 19 fev. 2025.
ix PEDRO, Arlindenor. Por que (re)ver Dersu Uzala. In: Outras Palavras. Disponível em: <https://outraspalavras.net/sem-categoria/por-que-rever-dersu-uzala/>. Acesso em: 19 fev. 2025.
x Idem.
Link da imagem: <https://www.campograndenews.com.br/lado-b/artes-23-08-2011-08/preto-no-branco-25-fotos-da-luta-indigena-na-disputa-por-terras-em-ms>. Acesso em: 19 fev. 2025.

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