quinta-feira, 23 de abril de 2026

Perguntas e respostas: O Príncipe, de Nicolau Maquiavel

1. Como Maquiavel entende os conceitos de “virtù” e “fortuna”?

Na obra O Príncipe, o conceito virtù pode ser entendido como a habilidade indispensável que um líder deve possuir para agir com sabedoria de modo a dominar a Fortuna (sorte, acaso) e garantir a estabilidade política (estatal) ou manter o poder. (Skinner, 2006, p. 142). In nuce, o homem de virtude (vir virtutis), em sua verità effettuale (verdade efetiva), deve agir conforme a circunstância imposta pela realidade, usando a força quando necessário, visando superar as adversidades e atingir a glória.

Nesse sentido, Nicolau Maquiavel, coetâneo da tradição do humanismo “cívico” de começos do século XV e dos escritores de espelhos de príncipes, entendia que o príncipe deveria pautar-se pelo modelo do vir virtutis, e que a ambição mais adequada a uma personalidade heroica consistia em almejar o mais elevado grau de honra, glória e fama. Quentin Skinner aponta que Maquiavel pretendia que todos os príncipes tomassem como referênciaalguma figura histórica que tenha recebido louvor e honra”, tendo em vista os seus feitos e atos, como, por exemplo, o rei Fernando de Aragão. (Skinner, ibidem, p. 140). Nas palavras do filósofo florentino: “debbe uno uomo prudente intrare sempre per vie battute da uomini grandi, e quelli che sono stati eccellentissimi imitare” (um homem prudente deve sempre seguir os caminhos trilhados por grandes homens e imitar aqueles que foram mais excelentes” (Maquiavel, 1998, p. 70).

Adicionalmente, Skinner ressalta que Maquiavel “apresenta a virtù do governante como uma força espantosamente criativa, a chave para que ele ‘mantenha seu estado’ e se capacite a esmagar seus inimigos” (Skinner, ibidem, p. 146). A respeito disso, a manutenção de um governo bem-sucedido depende de uma disposição inviolável a suprir as artes da persuasão mediante o recurso à força militar efetiva. (Idem, ibidem, p. 150). Recusando o artifício de tropas mercenárias, Maquiavel defende, no capítulo XIII d’O Príncipe, que todo príncipe deve se empenhar na constituição de uma milícia formada de cidadãos, e comandá-la pessoalmente. Caso não aja assim, “nenhum principado está seguro, antes, está à mercê da sorte [fortuna] não existindo virtude que o defenda nas adversidades” (Maquiavel, 1991, p. 57).

Contrapondo-se às ideias de virtù defendidas pelos autores de espelhos de príncipes, herdadas da tradução humanista de pensamento moral e político, Skinner pondera que Maquiavel atacou as virtudes principescas da liberalitate et parsimonia (liberalidade e parcimônia), da pietate (clemência), e da fides servanda (preservação da fé à palavrava dada). (Skinner, ibidem, p. 154). Ou seja, Maquiavel insiste que os príncipes devem ter ciência de que “para agir o mais virtuosamente possível, terão de desistir da pretensão de agir, sempre virtuosamente” (Idem, ibidem, p. 152), id est, se um príncipe, especialmente um príncipe novo, desejar “manter seu estado” perceberá que é essencial e vantajoso, embora forçado, não “observar todas as coisas a que são obrigados os homens considerados bons”, agindo “contra a caridade, a fé, a humanidade, a religião” (Maquiavel, ibidem, p. 74). Paralelamente, Maquiavel afirmou que “tutti e' profeti armati vinsono, e li disarmati ruinorono” (todos os profetas armados venceram e os desarmados foram destruídos) (Idem, 1998, p. 74), querendo dizer que alguns príncipes impuseram mudanças pela força (armados) tiveram sucesso, enquanto os que dependeram apenas da persuasão ou fé (desarmados) fracassaram.

Skinner pontua ainda que uma das forças antagônicas ao vir virtutis e a responsável pela ruína dos mais elaborados planos se tratava da Fortuna. (Skinner, ibidem, p. 140). Nesse sentido, para Maquiavel, havia duas principais vias pelas quais de adquire um principado: pelo exercício da virtù ou pelo dom da Fortuna. (Maquiavel, 1991, p. 27). O filósofo reconhece ser possível atrair os favores da Fortuna, de modo que, às vezes, se permite que certos homens “realizem grandes feitos”, como fundarem um novo principado. Tal é o caso de César Bórgia, que “adquiriu seu estado” graças à “boa fortuna”. Contudo, Maquiavel reconhece o caráter instável da deusa, e que os homens não devem confiar em seus favores. (Skinner, ibidem, p. 141). Logo, compara-a um dos “rios impetuosos que, quando se encolerizam, alagam as planícies, destorem as árvores, os edifícios, arrastam montes de terra de lugar para outro […]; o seu poder é manifesto onde não existe resistência organizada” (Maquiavel, ibidem, p. 103). É nesse viés que Maquiavel retoma a história de Bórgia para concluir que um príncipe deve apoiar-se mais em sua própria virtù do que com contar as benesses da Fortuna ao buscar “conservar seu estado”. (Skinner, ibidem, p. 141). César adquiriu o poder através da fortuna de seu pai e estava sujeito a perdê-la assim que a sorte não estivesse a seu favor, o que, de facto, ocorreu, conforme é narrado no capítulo VII dO Príncipe (Maquiavel, ibidem, p. 27-33). De modo contrário, Maquiavel cita que, dos que foram príncipes “pelo seu valor e não por boa sorte”, destacam-se Moisés, Ciro e os lendários Rômulo e Teseu, e pontua: ao examinar-lhes “a vida e as ações, conclui-se que eles não receberam da fortuna mais do que a ocasião de poder amoldar as coisas como melhor lhes aprouve”; “foram as suas virtudes que lhes deram o conhecimento [das] oportunidades”. (Idem, ibidem, p. 24).

Para reduzir e controlar o poder da Fortuna, Maquiavel, afirma que o príncipe deve agir com cautela, paciência e astúcia, tendo em vista que “quando um príncipe se apoia totalmente na fortuna, arruína-se segundo as variações daquela” (Idem, ibidem, p. 104); ou ainda, “se os tempos e as coisas lhe são favoráveis, o seu governo prospera e disso lhe advém felicidade. Mas se os tempos e as coisas mudam, ele arruína, porque não alterou o modo de proceder” (Idem, ibidem, p. 104). Ademais, o príncipe deve manter as aparências (como possuir boas qualidades), buscar ser considerado “pessoa honrada”, conquistar o “louvor universal”, ser prudente de modo que saiba como escapar à má reputação, deve ser um grande “embusteiro e mentiroso”, ser um bom simulador e dissimulador, ser temido e observar os homens que tem a seu redor, evitando os aduladores. (Skinner, ibidem, p. 152-153). Por fim, finaliza o capítulo XXV afirmando que “a sorte é mulher, e para dominá-la, é preciso bater-lhe e contrariá-la”, e que a Fortuna é amiga dos jovens, “porque são mais ferozes e com maior audácia a dominam” (Maquiavel ibidem, p. 105).

Apesar das artimanhas da Fortuna, o filósofo florentino atenta-se ao papel preponderante da virtù na condução dos negócios públicos. No capítulo XXIV, Maquiavel acautela os novos príncipes, caso desejem alcançar as glórias resultantes de ter fundado um principado novo e consolidar sua existência, que “somente são bons, certos e duradouros os meios de defesa que dependem de ti mesmo e do teu valor [ou virtù]” (Maquiavel, ibidem, p. 102). No capítulo XXVI, Maquiavel, clamando por um líder que use a virtù para livrar a Itália das mãos dos bárbaros (invasões estrangeiras), exorta e assegura aos Medici de que a “ilustre casa” possui ânimo e fé, não havendo ninguém mais preparado para fazer com que a “pátria [Itália] seja enobrecida” (Idem, ibidem, p. 110). Concluindo, Maquiavel cita algumas estrofes da canção All'Italia de Francesco Petrarca que “apelava a seus compatriotas para provar que sua virtus não estava perdida e que eles seriam capazes de ressuscitar as glórias da antiga Roma na Itália moderna” (Skinner, ibidem, p. 142). Tais versos são assim reproduzidos: “Virtú contro a furore/ Prenderà l'arme; e fia il combatter corto/ Ché l'antico valore/ Nell'italici cor non è ancor morto” (A virtude tomará armas contra o furor e será breve o combate, pois o antigo valor ainda não está morto nos corações italianos) (Maquiavel, ibidem, p. 110).

2. Quais os elementos para afirmar que Maquiavel seria Republicano?

Quentin Skinner aponta que Nicolau Maquiavel, por formação e convicção, era basicamente um republicano, sendo, durante a restauração da República florentina, segundo secretário da Chancelaria, entre os anos de 1498 e 1512. Ad mentem auctoris, a meta de manter a liberdade e a segurança de uma República, embora utilizando-se de ações repreensíveis pela ótica da moralidade cristã, representava o valor mais elevado e decisivo da vida politica. (Skinner, 2006, p. 174; 177; 203).

Skinner situa que, em inícios do século XVI, a tradição republicana da doutrina politica (influenciada pelos escritos dos humanistas “cívicos” florentinos do Quatrocentos, como Coluccio Salutati, Leonardo Bruni, Poggio Bracciolini, Alamanno Rinuccini, Francesco Patrizi) ressurgiu tanto em Florença quanto em Roma. Essas cidades, no final da Renascença, foram sendo submetidas a formas mais despóticas de governo. Nessa conjuntura, contudo, tais regimes sofreram um certo entrave em 1494, quando os franceses invadiram determinadas cidades italianas. Tanto os Medici quanto os papas tiveram dificuldade em resistir e negociar com os invasores: “esse fracasso permitiu aos opositores acusar seus regimes de incompetência e clamar pela restauração das liberdades populares” (Idem, ibidem, p. 163).

Segundo Carlos Dias, Maquiavel compreendia que o conflito influencia e é essencial para o desenvolvimento institucional da República, por ele permitir o aprimoramento das leis que garantem a liberdade. (Dias, 2019, p. 12). Maquiavel investigou a liberdade na esfera puramente política, assim, o homem seria livre se tivesse uma “vida cidadã”. Essa, por sua vez, pressupõe a existência de um regime de leis que garanta a liberdade de todos, sem uma classe se sobrepor a outra. “Para tanto, seria preciso aparar as divergências sociais de modo a fazer com que a energia dos ânimos convirja para o bem-estar de toda a comunidade” (Idem, ibidem, p. 77). Nesse cenário, Maquiavel via a liberdade como o componente elementar para o desenvolvimento de uma cidade; além disso, percebia a importância da ausência de interferências externas e da virtù na administração dos conflitos no plano interno. Mas, para que a liberdade fosse mantida no âmbito interno, era necessário existir uma virtù do povo, que, nos regimes republicanos, diante das rebeliões, recorrem aos ideais de liberdade e antigas leis, não se esquecendo-os “nem com o correr do tempo, nem por influência dos benefícios recebidos” (Maquiavel, 1991, p. 22). Essa perspectiva se popularizou em sua famosa passagem: “nelle repubbliche è maggiore vita, maggiore odio, piú desiderio di vendetta; né li lascia, né può lasciare riposare la memoria della antiqua libertà(nas repúblicas há mais vida, o ódio é mais poderoso, maior é o desejo de vingança; não deixam nem podem deixar repousar a memória da antiga liberdade) (Idem, 1998, p. 68).

Ao situar o respectivo trecho do capítulo V d’O Príncipe supracitado,

o filósofo mostra como submeter a si uma cidade acostumada a viver sob leis próprias. Ao falar de um Estado que vive sob o ditame de leis, mostra que o regime republicano é o que garante a liberdade dos cidadãos, o qual, por meio das leis, regula os conflitos entre grupos contraditórios. Vivendo de modo republicano, uma comunidade apresenta um complicador àquele que pretenda dominá-la, isso porque um povo acostumado a ser livre não admite viver sem liberdade. Por isso, a vida em Estados acostumados a viver sob o republicanismo fica insuportável quando a liberdade de seus cidadãos é suprimida. Ante essa situação, a relembrança daquelas instituições antigas virá à memória do povo, que a buscará por todos os meios. Portanto, somente um Estado que permita ao povo expressar suas vontades e confrontar seus opositores pode garantir a expansão da liberdade e impedir o soterramento das ambições populares.

[…] Na República, a política é vista em tons e contornos reais, e cabe ao governante gerir o Estado de modo a permitir que os conflitos ganhem vazão e evite guerras generalizadas de todos contra todos. A tarefa do governante é, pois, proporcionar uma linha de ação que, em meio ao caos, seja capaz de aglutinar as energias dispersas em torno do progresso institucional e social da cidade. (Dias, ibidem, p. 78).

Dias reforça sua análise sobre a correlação entre as leis, a liberdade e o povo n’O Príncipe. Sobre as leis, o autor diz que elas são fruto da liberdade, apresentam-se como o princípio da virtù, e têm por objetivo conter os desejos e instaurar a ordem “ao caos estabelecido pelo barulho dos conflitos”, levando “a natureza egoísta do indivíduo à busca do bem para si e para toda a coletividade” (Idem, ibidem, p. 84). Já a liberdade é o subproduto da infindável luta social entre povo e nobreza, o que cria a possibilidade de surgir instituições capazes de proporcionar liberdade para “todos” (conforme ocorreu na República romana). Ou seja, a liberdade é o traço distintivo de uma cidade que sabe usar a contradição entre seus cidadãos em favor da comunidade. (Idem, ibidem, p. 80-81). Nesse aspecto, Maquiavel esclarece que “o povo não deseja ser governado nem oprimido pelos grandes, e estes desejam governar e oprimir o povo. Destes dois apetites diferentes nasce nas cidades um destes três efeitos: principado, liberdade, desordem” (Maquiavel, 1991, p. 39). Sendo assim, partindo do pressuposto de que o povo é o “protagonista do processo político que culmina com a liberdade e o crescimento institucional do Estado, cabe a ele mobilizar-se para evitar que a liberdade seja atacada pelos que pretendam usurpá-la” (Dias, ibidem, p. 80). Os nobres agem pensando na possibilidade de autobeneficiarem-se e aumentar seu poder. Já o povo, que ocupa aqui uma posição institucional na participação política, deseja ser livre e proteger-se de seus opressores. Diante desse conflito de interesses impera a necessidade do povo de vigiar sua liberdade no intuito de evitar que ela seja violada pelas pretensões dos grandes ou de estrangeiros ávidos em submeter a República. Dias conclui que o povo desempenha seu papel como ator político ao buscar a sua liberdade “não como a negação do desejo de opressão dos nobres, mas como um desejo positivo de tomar parte no espaço público e, por conseguinte, atuar de modo a garantir a liberdade política do Estado” (Idem, ibidem, p. 87).

Maquiavel também argumentou, no capítulo VIII, que o povo, por vezes enganado, pode preferir o "bem" aparente que leva à ruína (servidão voluntária) em vez de manter a verdadeira liberdade republicana, muitas vezes por falta de bons líderes. O filósofo cita o caso emblemático de Oliverotto de Fermo (1475-1502), condottiero italiano e senhor de Fermo, que conquistou o poder através da crueldade e vilania. Após criar-se órfão e treinar na milícia, Oliverotto, com auxílio de seu irmão, Vitellozzo, convidou João Fogliani, tio materno que o criou, e alguns cidadãos de Fermo, “que preferiram a servidão à liberdade de sua pátria”, para um banquete, onde foram todos assassinados por seus soldados, tomando, desse modo, o controle da cidade. (Maquiavel, ibidem, p. 36).

Visando a manutenção da independência em face da agressão externa, Maquiavel trata, no capítulo XII, dos gêneros de milícia e dos soldados mercenários, e ressalta que as tropas devem ser usadas tanto por um príncipe quanto por uma república, mas com uma regra basilar: devem ser tropas próprias (cidadãos ou súditos), nunca mercenárias ou auxiliares. O regime republicano deveria nomear um de seus cidadãos como capitão. Se ele fosse um “homem de valor no seu povo”, deveria ser contido pelas leis para não exorbitar de suas funções; se fosse incompetente, tinha de ser substituído. Logo, a “experiência ensina que os príncipes, agindo por si mesmos, e as repúblicas armadas alcançam grandes progressos, ao passo que as armas mercenárias só causam danos” (Maquiavel, ibidem, p. 50). Nessa ótica, uma república armada que envia seus próprios cidadãos para a guerra tem muito menos chances de se submeter ao domínio de um invasor do que uma república usando mercenários.

Diante do que foi exposto, pode-se dizer que Maquiavel, n’O Príncipe, foca na manutenção do poder por um governante para estabilizar um Estado “desordenado”. Porém, a República é vista como a forma ideal de governo, pois enfatiza a libertà e a participação ativa dos cidadãos, garantindo a estabilidade política a longo prazo.

Referências bibliográficas:

Dias, Carlos Eduardo Ruas. Política e conflito civil no pensamento de Maquiavel. 2019. 95f. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2019.

Maquiavel, Nicolau. O Príncipe. In: O Príncipe; Escritos Políticos. Tradução de Lívio Xavier. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os Pensadores).

_______________. El Principe. Prólogo y notas de Luce Fabbri Cressatti. Ed. bilingüe. Montevideo: Editorial Nordan-Comunidad, 1998.

Skinner, Quentin. As fundações do pensamento político moderno. Tradução de Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Link da imagem: <https://m.media-amazon.com/images/I/81h4CdNxdgL.jpg>. Acesso em: 23 abr. 2026.